Confissões - Livro XII 18
Livro XII: o céu do céu, a matéria informe e a criação a partir do nada
Ouvidas e consideradas todas estas coisas, não quero contender com palavras, pois isso para nada serve senão para subversão dos ouvintes. A lei, no entanto, é boa para a edificação, se alguém dela usa legitimamente, porque o seu fim é a caridade que procede de coração puro, de boa consciência e de fé não fingida. E bem sabia o nosso Mestre em quais dois preceitos suspendeu toda a Lei e os Profetas. Confessando-vos eu ardentemente estas coisas, ó meu Deus, luz dos meus olhos no oculto, que prejuízo me traz, podendo entender-se nestas palavras coisas diversas que contudo sejam verdadeiras? Que me prejudica, digo eu, se eu sentir algo diverso daquilo que outro pensa ter sentido aquele que escreveu? Todos nós que lemos, na verdade, nos esforçamos por rastrear e compreender o que quis aquele que lemos; e, cremos-o veraz, não ousamos imaginar que ele tenha dito algo que ou sabemos ou julgamos ser falso. Enquanto, pois, cada um se empenha por sentir nas Escrituras santas aquilo que nelas sentiu aquele que escreveu, que mal há se sentir aquilo que Vós, ó luz de todas as mentes veridicas, mostrais ser verdadeiro, ainda que não fosse isto o que sentiu aquele a quem lê, uma vez que também ele sentiu uma verdade, embora não esta verdade?