Confissões - Livro XII 24

Livro XII: o céu do céu, a matéria informe e a criação a partir do nada

Mas quem de nós a encontra, entre tantas verdades que ocorrem aos que buscam naquelas palavras entendidas de um modo e de outro, de tal forma que diga com tanta confiança que isto sentiu Moisés e que isto quis que se entendesse naquela narrativa, com a mesma confiança com que diz que isto é verdadeiro, quer ele o tenha sentido, quer outra coisa? Eis, pois, Deus meu, eu, vosso servo, que vos votei o sacrifício da confissão nestes escritos e oro para que, pela vossa misericórdia, vos pague os meus votos: eis com quanta confiança digo que no vosso Verbo imutável fizestes todas as coisas, as invisíveis e as visíveis. Acaso digo com tanta confiança que Moisés não atentou para outra coisa senão para esta, quando escreveu: 'No princípio fez Deus o céu e a terra'? Pois não vejo na mente dele que ele isto pensou quando escrevia estas coisas, como o vejo certo na vossa verdade. Pois pode ter pensado, ao dizer 'No princípio', 'no próprio começo do fazer'; e pode ter querido que, por 'céu e terra' neste lugar, se entendesse nenhuma natureza formada e acabada, seja espiritual seja corporal, mas ambas iniciadas e ainda informes. Vejo, com efeito, que verdadeiramente poderia ter-se dito qualquer destas coisas que se dissesse, mas qual delas ele pensou nestas palavras, isto não vejo assim, ainda que, seja alguma destas coisas, seja alguma outra que por mim não foi mencionada, que aquele tão grande varão contemplou com a mente ao proferir estas palavras, não duvido de que viu o verdadeiro e o enunciou aptamente.