Confissões - Livro XII 15

Livro XII: o céu do céu, a matéria informe e a criação a partir do nada

Acaso direis ser falso o que a Verdade me diz, com voz forte, no ouvido interior, acerca da verdadeira eternidade do Criador, isto é, que de modo algum a sua substância se altera pelos tempos, nem a sua vontade está fora da sua substância? Donde se segue que ele não quer ora isto, ora aquilo, mas de uma vez, e simultaneamente, e sempre quer tudo o que quer; não repetidas vezes, nem agora estas coisas, agora aquelas, nem quer depois o que antes não queria, ou não quer o que antes queria, pois tal vontade é mutável, e tudo o que é mutável não é eterno: mas o nosso Deus é eterno. Do mesmo modo, o que ele me diz no ouvido interior é que a expectativa das coisas futuras se torna visão quando elas chegam, e essa mesma visão se torna memória quando passaram. Ora, toda intenção que assim se altera é mutável, e tudo o que é mutável não é eterno: mas o nosso Deus é eterno. Estas coisas reúno e ajunto, e descubro que o meu Deus, o Deus eterno, não fundou a criatura por alguma vontade nova, nem o seu conhecimento padece de algo transitório.
Que direis, então, contraditores? Acaso são falsas estas coisas? 'Não', respondem. E quanto a esta outra: porventura é falso que toda natureza formada, ou matéria capaz de forma, não existe senão por aquele que é supremamente bom porque é supremamente? 'Tampouco isto negamos', dizem. Que então? Acaso negais isto: que certa criatura sublime que adere com tão casto amor ao Deus verdadeiro e verdadeiramente eterno que, ainda que não lhe seja coeterna, todavia em nenhuma variedade e vicissitude dos tempos dele se dissolve e escoa, mas repousa na contemplação verdadeiríssima dele só? Pois Vós, ó Deus, a quem vos ama tanto quanto ordenais, vos mostrais a ele e lhe bastais, e por isso ele não se desvia de Vós nem para si. Esta é a casa de Deus, não terrena nem de qualquer massa corpórea celeste, mas espiritual e participante da vossa eternidade, porque sem mácula para sempre. Pois a estabelecestes para todo o século e para o século dos séculos; pusestes um preceito, e ele não passará. E todavia não é coeterna convosco, ó Deus, porque não é sem princípio: pois foi feita.
Pois ainda que não encontremos tempo antes dela (visto que a sabedoria foi criada antes de todas as coisas; não, decerto, aquela Sabedoria que vos é, ó Deus nosso, ao seu Pai, plenamente coeterna e igual, e pela qual foram criadas todas as coisas, e no qual princípio fizestes o céu e a terra, mas certamente a sabedoria que foi criada, isto é, a natureza intelectual, que pela contemplação da luz é luz; pois também ela, embora criada, se chama sabedoria, mas quanto vai entre a luz que ilumina e a que é iluminada, tanto vai entre a sabedoria que cria e esta que foi criada, assim como entre a justiça que justifica e a justiça que se fez pela justificação; pois também nós fomos chamados vossa justiça, porquanto certo servo vosso diz: 'para que nós sejamos justiça de Deus nele') logo, porque foi criada antes de todas as coisas certa sabedoria que foi criada, a mente racional e intelectual da vossa casta cidade, nossa mãe, que está no alto e é livre e eterna nos céus (em que céus, senão naqueles que vos louvam, o céu dos céus, porque este é também o céu do céu para o Senhor?), ainda que não encontremos tempo antes dela, porque também precede a criatura do tempo aquela que foi criada antes de todas as coisas, todavia antes dela está a eternidade do próprio Criador, do qual, sendo feita, tomou o começo, não decerto do tempo, pois ainda não havia tempo, mas da sua própria condição de criatura.
Donde de tal modo procede de Vós, ó Deus nosso, que é claramente outra coisa que Vós, e não o próprio Mesmo. Embora não antes dela, mas nem mesmo nela encontremos tempo, porque ela é apta a ver sempre a vossa face, e em parte alguma dela se desvia (donde resulta que por nenhuma mudança se altera), nela, todavia, a própria mutabilidade, pela qual escureceria e esfriaria, se, aderindo a Vós com grande amor, não resplandecesse e ardesse de Vós como um meio-dia perpétuo. Ó casa luminosa e formosa, amei a tua beleza e o lugar da habitação da glória do meu Senhor, teu construtor e possuidor! Por ti suspire a minha peregrinação, e digo àquele que te fez que me possua também a mim em ti, pois também a mim me fez. Errei como ovelha perdida, mas nos ombros do meu pastor, teu edificador, espero ser reconduzido a ti.
Que me dizeis, vós contraditores a quem eu falava, que todavia credes ser Moisés piedoso servo de Deus, e os seus livros oráculos do Espírito Santo? Não é esta a casa de Deus, não, na verdade, coeterna a Deus, mas todavia, segundo o seu modo, eterna nos céus, onde em vão buscais as vicissitudes dos tempos, porque não as encontrais? Pois ultrapassa toda distensão e todo espaço de idade volúvel aquilo a que sempre aderir a Deus é bom. assim', dizem. Que, pois, dentre as coisas que o meu coração clamou ao meu Deus, ao ouvir interiormente a voz do seu louvor, que afinal sustentais ser falso? Acaso que havia uma matéria informe, onde, por não haver forma alguma, nenhuma ordem existia? Ora, onde nenhuma ordem havia, não podia haver vicissitude alguma dos tempos; e todavia este quase-nada, enquanto não era de todo nada, era certamente daquele de quem procede tudo o que é, seja em que grau for que algo é. 'Isto também', dizem, 'não negamos.'