Confissões - Livro XII 17
Livro XII: o céu do céu, a matéria informe e a criação a partir do nada
Dizem, com efeito: "Embora estas coisas sejam verdadeiras, não eram, contudo, essas duas que Moisés contemplava quando, por revelação do Espírito, dizia: 'No princípio fez Deus o céu e a terra.' Sob o nome de céu não significou aquela criatura espiritual ou intelectual que sempre contempla a face de Deus, nem sob o nome de terra significou a matéria informe." Que é, então? "O que nós dizemos", afirmam, "isso aquele varão entendeu, isso exprimiu com estas palavras." Que é aquilo? "Sob o nome", dizem, "de céu e de terra quis significar primeiro, de modo universal e breve, todo este mundo visível, para depois dispor, pela enumeração dos dias, como que por partes articuladas, todas as coisas que ao Espírito Santo aprouve enunciar assim. Pois homens tais eram aquele povo rude e carnal a quem ele falava, que julgou não se deverem confiar a eles senão as obras visíveis de Deus." Quanto, porém, à terra invisível e desordenada e ao abismo tenebroso, donde em seguida se mostra terem sido feitas e dispostas, ao longo daqueles dias, todas estas coisas visíveis que são conhecidas de todos, concordam não ser incongruente entender-se aí essa matéria informe.
E se outro disser que essa mesma informidade e confusão da matéria foi primeiro insinuada sob o nome de céu e de terra, porque dela foi constituído e aperfeiçoado este mundo visível, com todas as naturezas que nele manifestissimamente aparecem, o qual costuma muitas vezes ser chamado pelo nome de céu e de terra? E se ainda outro disser que céu e terra são nome não impróprio para a natureza invisível e visível, e que, por isso, toda a criação que Deus fez na Sabedoria, isto é, no Princípio, está compreendida nestes dois vocábulos; mas que, todavia, porque não da própria substância de Deus, e sim do nada, foram feitas todas as coisas (pois não são aquilo mesmo que Deus é, e há em todas certa mutabilidade, quer permaneçam, como a eterna casa de Deus, quer se mudem, como a alma e o corpo do homem), a matéria comum de todas as coisas invisíveis e visíveis, ainda informe mas certamente formável, donde se fizesse o céu e a terra, isto é, uma e outra criatura já formada, a invisível e a visível, foi enunciada por estes nomes, com que se chamasse a terra invisível e desordenada e as trevas sobre o abismo, mas com esta distinção: que por terra invisível e desordenada se entenda a matéria corporal antes da qualidade da forma, e por trevas sobre o abismo a matéria espiritual antes da contenção de sua imoderação como que fluente, e antes da iluminação da Sabedoria?
Resta ainda o que diga, se algum outro quiser, que não são as naturezas já perfeitas e formadas, invisíveis e visíveis, que se significam pelo nome de céu e de terra, quando se lê: "No princípio fez Deus o céu e a terra", mas que foi por estes nomes chamada a própria inchoação ainda informe das coisas, a matéria formável e criável, porque nela já estavam aquelas coisas confusas, ainda não distintas por qualidades e formas, as quais agora, já dispostas em suas ordens, se chamam céu e terra: aquela a criatura espiritual, esta a corporal.