Confissões - Livro XII 13
Livro XII: o céu do céu, a matéria informe e a criação a partir do nada
Eis o que por ora sinto, meu Deus, quando ouço falar a vossa Escritura: 'No princípio fez Deus o céu e a terra. A terra, porém, era invisível e desordenada, e havia trevas sobre o abismo', e não menciona em que dia fizestes estas coisas. Assim por ora sinto, por causa daquele céu do céu, o céu intelectual, onde é próprio do intelecto conhecer ao mesmo tempo, não em parte, não por enigma, não por espelho, mas por inteiro, em plena manifestação, face a face; não ora isto, ora aquilo, mas conhecer, como foi dito, ao mesmo tempo, sem nenhuma sucessão de tempos; e por causa da terra invisível e desordenada, sem nenhuma sucessão de tempos, sucessão que costuma ter ora isto, ora aquilo, porque onde não há forma alguma, em parte alguma há isto e aquilo. Por causa destas duas coisas, a primeiramente formada e a inteiramente informe, aquela um céu, mas o céu do céu, esta porém uma terra, mas a terra invisível e desordenada, por causa destas duas coisas por ora sinto que vossa Escritura diz, sem menção de dias: 'No princípio fez Deus o céu e a terra.' Pois logo acrescentou de que terra falava, e, ao mencionar que no segundo dia foi feito o firmamento e chamado céu, insinua de qual céu antes falara sem dias.