Confissões - Livro XII 29
Livro XII: o céu do céu, a matéria informe e a criação a partir do nada
Mas aquele que não entende o "no princípio fez" de outro modo senão como se fosse dito "primeiro fez", não tem como entender com verdade o céu e a terra, a não ser que entenda a matéria do céu e da terra, isto é, de toda a criatura universal, ou seja, da inteligível e da corpórea. Pois se quisesse já formada a criatura universal, com razão se lhe poderia perguntar: se Deus fez isto primeiro, que fez em seguida? E, depois da totalidade, nada encontrará, e por isso ouvirá contra a vontade: "Como aquilo foi feito primeiro, se nada veio depois?" Mas quando diz que primeiro foi informe, depois formada, não é absurdo, contanto que seja capaz de discernir o que precede pela eternidade, o que pelo tempo, o que pela escolha, o que pela origem: pela eternidade, como Deus a todas as coisas; pelo tempo, como a flor ao fruto; pela escolha, como o fruto à flor; pela origem, como o som ao canto. Destes quatro, o primeiro e o último que mencionei são compreendidos com a maior dificuldade; os dois do meio, facilíssimamente. Pois rara visão é, e por demais árdua, contemplar, Senhor, a vossa eternidade fazendo imutavelmente as coisas mutáveis e por isso anterior a elas. E quem, depois, discernirá com a mente tão penetrante que possa sem grande esforço perceber como o som é anterior ao canto, justamente porque o canto é som formado, e algo não formado pode certamente existir, mas não pode ser formado aquilo que não é? Assim, a matéria é anterior àquilo que dela se faz, não anterior porque ela mesma o produz, pois antes ela é que vem a ser feita, nem anterior por intervalo de tempo. Pois não é em tempo anterior que emitimos sons informes, sem canto, e em tempo posterior os ajustamos ou moldamos na forma do cântico, como a madeira de que se fabrica uma arca, ou a prata de que se faz um vaso. Tais matérias, na verdade, precedem também no tempo as formas das coisas que delas se fazem, mas no canto não é assim. Pois quando se canta, ouve-se o seu som; ele não soa primeiro informemente e depois é formado em canto. Pois aquilo que de algum modo soou primeiro, passa, e dele nada encontrarás que, retomado, possas compor com arte. E por isso o canto se converte em seu som, o qual som é a sua matéria. Pois esse mesmo é formado para que seja canto. E por isso, como eu dizia, a matéria do soar é anterior à forma do cantar. Não anterior pela potência de fazer: pois o som não é o artífice do canto, mas está subjacente à alma que canta, a partir do corpo, do qual ela faça o canto; nem anterior no tempo: pois é emitido juntamente com o canto; nem anterior pela escolha: pois o som não é superior ao canto, visto que o canto não é apenas som, mas também som belo. Mas é anterior pela origem, porque não é o canto que é formado para que seja som, mas o som é formado para que seja canto. Por este exemplo, entenda quem é capaz que a matéria das coisas foi feita primeiro e chamada céu e terra, porque dela foram feitos o céu e a terra, e não foi feita primeiro no tempo, porque as formas das coisas é que produzem os tempos, ao passo que aquela era informe e já agora se percebe nos tempos juntamente com a sua forma; e contudo nada se pode narrar a respeito dela, a não ser como se fosse anterior no tempo, embora seja tida por última em valor, porque sem dúvida as coisas formadas são melhores do que as informes, e é precedida pela eternidade do Criador, para que houvesse, do nada, aquilo de que algo se fizesse.