Capítulos

Confissões - Livro X

Agostinho e as Confissões

Agostinho de Hipona (354-430), bispo no norte da África romana, escreveu as Confissões por volta de 397-401, em treze livros. É a primeira grande autobiografia espiritual do Ocidente: toda a obra é endereçada a Deus em forma de oração, narrando a conversão do autor e meditando sobre a memória, o tempo e a criação. Tornou-se um dos textos mais influentes da literatura cristã latina.

O Livro X nas Confissões

O Livro X é o ponto de virada da obra. Aqui Agostinho deixa o relato autobiográfico dos nove primeiros livros e passa a examinar quem ele é no presente, no momento em que escreve. Pergunta o que significa amar a Deus e onde Deus pode ser encontrado, o que o conduz à longa e célebre análise da memória, os vastos campos e palácios onde se guardam imagens, ciências, afecções e até o próprio esquecimento, e em cujo cume, transcendendo-a, se acha Deus. Dessa busca passa à vida feliz, que identifica com a alegria da verdade. Em seguida examina as três formas de tentação que ainda o assediam como bispo, organizadas segundo a tríplice concupiscência de 1João 2:16: a concupiscência da carne, a concupiscência dos olhos e a soberba da vida. O livro culmina em Cristo como o único Mediador entre Deus e os homens. É também aqui que aparece a invocação "Tarde vos amei".

Conteúdo do Livro

    A memória, onde se busca a Deus

  • Agostinho deseja conhecer a Deus assim como por Deus é conhecido, e dirige a Ele a sua confissão na esperança(Confissões - Livro X 1)
  • Tudo está descoberto diante de Deus; confessar a Deus não O informa, mas desperta o afeto do penitente(Confissões - Livro X 2)
  • Por que confessar diante dos homens o que já passou; o leitor crente e a caridade que crê em seu irmão(Confissões - Livro X 3)
  • O fruto da confissão presente: que os irmãos saibam quem ele agora é, e por ele deem graças ou orem(Confissões - Livro X 4)
  • O homem conhece de si o que o seu próprio espírito sabe; algo só Deus conhece, por isso confessa o que ignora(Confissões - Livro X 5)
  • Que coisa ele ama ao amar a Deus; interroga as criaturas, que respondem "não somos Deus, Ele nos fez"(Confissões - Livro X 6)
  • Deus não é encontrado pela força corporal nem pelos sentidos partilhados com os animais; é preciso subir mais(Confissões - Livro X 7)
  • Os campos e amplos palácios da memória, onde se guardam as imagens das coisas sensíveis prontas a serem evocadas(Confissões - Livro X 8)
  • As artes liberais e o conhecimento das ciências não estão na memória como imagens, mas como as próprias coisas(Confissões - Livro X 9)
  • Esses conhecimentos não entraram pelos sentidos; já estavam na memória, recolhidos do seu próprio fundo(Confissões - Livro X 10)
  • Aprender as coisas que a memória já contém dispersas é reuni-las e pensá-las; daí o termo cogitar, de cogo(Confissões - Livro X 11)
  • A memória guarda também as razões e leis dos números e das dimensões, que nenhum sentido corporal imprimiu(Confissões - Livro X 12)
  • A memória retém a própria memória; lembra-se de já se ter lembrado, e recordará o ato presente de lembrar(Confissões - Livro X 13)
  • As afecções da alma, alegria, tristeza, temor, desejo, estão na memória sem que a alma as sinta ao recordá-las(Confissões - Livro X 14)
  • Pode-se nomear coisas ausentes, como a pedra ou o sol, pela imagem que delas ficou retida na memória(Confissões - Livro X 15)
  • Como a memória guarda o próprio esquecimento; o problema de a privação da memória estar presente para ser lembrada(Confissões - Livro X 16)
  • A força da memória é grande e excede o homem; Deus não está em parte alguma dela, mas acima dela, e é preciso transcendê-la(Confissões - Livro X 17)
  • A busca da vida feliz

  • Quem perde algo e o reencontra reconhece-o pela memória; sem ela não saberia que era aquilo que buscava(Confissões - Livro X 18)
  • O que é recordar e o que é esquecer; o esquecido em parte se retém, pois por ele se procura o que falta(Confissões - Livro X 19)
  • Ao buscar a Deus, busca a vida feliz; todos a querem, logo de algum modo já a conhecem e a têm na memória(Confissões - Livro X 20)
  • Como a vida feliz está na memória se nunca foi vivida; está como a alegria conhecida, que todos desejam(Confissões - Livro X 21)
  • A vida feliz é alegrar-se de Deus, por Deus e em razão de Deus; essa é a verdadeira e não há outra(Confissões - Livro X 22)
  • Todos querem a vida feliz, isto é, alegrar-se da verdade; mas amam outras coisas e odeiam a verdade que os repreende(Confissões - Livro X 23)
  • Onde quer que se ache a verdade, aí se acha Deus; desde que O conheceu, Ele permanece na memória do autor(Confissões - Livro X 24)
  • Em que lugar da memória habita Deus; não em nenhuma das regiões que percorreu, pois Ele está acima de tudo(Confissões - Livro X 25)
  • Deus não está num lugar; está onde a verdade preside, respondendo a todos os que O consultam sobre coisas diversas(Confissões - Livro X 26)
  • "Tarde vos amei, formosura tão antiga e tão nova": Deus estava dentro e Agostinho fora; Ele chamou e rompeu sua surdez(Confissões - Livro X 27)
  • Quando aderir todo a Deus, cessarão dor e fadiga; mas a vida presente é uma provação contínua, toda tentação(Confissões - Livro X 28)
  • O exame das tentações presentes

  • Toda a esperança está na grandíssima misericórdia de Deus; "dai o que ordenais e ordenai o que quiserdes"(Confissões - Livro X 29)
  • A concupiscência da carne e as imagens lascivas que assaltam o sono; persistem depois de vencidas na vigília(Confissões - Livro X 30)
  • A tentação do comer e do beber; necessidade e prazer confundem-se, e a sobriedade luta na fronteira entre fome e gula(Confissões - Livro X 31)
  • A atração dos perfumes e dos odores; menos perigosa para ele, embora não saiba se não se enganaria sobre si mesmo(Confissões - Livro X 32)
  • Os prazeres do ouvido e o canto na Igreja; oscila entre o perigo da melodia e a utilidade de mover os ânimos à devoção(Confissões - Livro X 33)
  • A concupiscência dos olhos: a luz, as cores e as formas; os homens fabricam mil belezas e esquecem Aquele que as fez(Confissões - Livro X 34)
  • A curiosidade, vão desejo de saber e experimentar disfarçado de ciência; espetáculos, magia e o prurido de conhecer por conhecer(Confissões - Livro X 35)
  • A terceira tentação, a soberba da vida: querer ser temido e amado pelos homens em proveito próprio(Confissões - Livro X 36)
  • O amor do louvor humano; ainda o tenta, e nem sabe se se alegra com a verdade do elogio ou com o próprio elogio(Confissões - Livro X 37)
  • O perigo de se comprazer consigo mesmo; até no desprezo da vanglória se gloria, o que é uma vanglória maior(Confissões - Livro X 38)
  • Há quem se agrade de si mesmo sem referência a Deus; é o mais oculto e perigoso dos amores-próprios(Confissões - Livro X 39)
  • Por todos esses caminhos buscou Deus e em nenhuma criatura O encontrou senão acima de si, na luz interior(Confissões - Livro X 40)
  • Disperso pelas coisas inferiores, só pela verdade se recolhe e se unifica; reconhece que sem Deus nada pode(Confissões - Livro X 41)
  • Cristo, o único Mediador

  • Buscou um mediador e encontrou falsos mediadores, os demônios soberbos que enganam pela magia e pela pretensão de pureza(Confissões - Livro X 42)
  • O verdadeiro Mediador é Cristo, Deus e homem, mortal e justo; por sua paixão reconcilia os homens com Deus e cura sua enfermidade(Confissões - Livro X 43)

Texto e Tradução

O texto latino de base é o das edições críticas das Confessiones (notadamente a do Corpus Christianorum e a edição clássica de Skutella), aqui apresentado em latim ao lado do português. A citação segue a convenção da obra por livro, capítulo e parágrafo: Confissões X, o número do capítulo e, entre parênteses, o número do parágrafo, contado de modo contínuo ao longo de todo o livro.