Confissões - Livro X 9
Livro X: a memória, a busca de Deus e o exame das tentações presentes
Mas não é só isso que carrega essa imensa capacidade da minha memória. Aqui estão também todas aquelas coisas apreendidas das ciências liberais e ainda não esquecidas, como que removidas para um lugar interior que, no entanto, não é lugar; e delas não guardo as imagens, mas as próprias coisas. Pois o que seja a literatura, o que seja a arte de disputar, quantos sejam os gêneros de questões, tudo isso que conheço está de tal modo na minha memória, que não retive a imagem deixando a coisa do lado de fora, nem soou e passou como uma voz impressa pelos ouvidos por um vestígio com que se recordasse, quase soando quando já não soava; nem como um odor que, enquanto passa e se desvanece nos ventos, afeta o olfato, donde transmite para a memória uma imagem de si que, recordando, retomamos; nem como o alimento que, na verdade, já não tem sabor no ventre e, contudo, na memória como que ainda sabe; nem como algo que se sente ao tocar o corpo, e que, mesmo separado de nós, a memória imagina. Pois essas coisas não são introduzidas até ela, mas só as suas imagens são apreendidas com admirável rapidez e guardadas como que em maravilhosas celas, e maravilhosamente trazidas para fora pelo ato de recordar.