Confissões - Livro X 30
Livro X: a memória, a busca de Deus e o exame das tentações presentes
Vos me ordenais, certamente, que me contenha da concupiscência da carne, da concupiscência dos olhos e da ambição do século. Ordenastes a abstinência do concubinato e, quanto ao próprio matrimônio, aconselhastes algo melhor do que aquilo que permitistes. E porque o destes, foi feito, ainda antes de eu me tornar dispensador do vosso sacramento. Mas ainda vivem na minha memória, de que muito falei, as imagens de tais coisas, que ali o meu costume fixou; e me assaltam quando estou desperto, é verdade, despidas de forças, mas no sono não só até a deleitação, mas até o consentimento e a um ato muito semelhante ao real. E tanto vale a ilusão da imagem na minha alma e na minha carne, que ao que dorme as visões falsas persuadem o que ao desperto as verdadeiras não podem. Acaso então não sou eu, Senhor meu Deus? E todavia há tão grande diferença entre mim mesmo e mim mesmo, no momento em que daqui passo ao sono ou de lá retorno para cá! Onde está então a razão com que desperto resiste a tais sugestões e, ainda que as próprias coisas se lhe apresentem, permanece inabalável? Acaso se fecha com os olhos? Acaso adormece com os sentidos do corpo? E donde vem que muitas vezes, até no sono, resistimos e, lembrados do nosso propósito e permanecendo nele castíssimos, não damos consentimento algum a tais atrativos? E todavia há tão grande diferença que, quando acontece de outro modo, ao despertar voltamos à tranquilidade da consciência e, por essa mesma distância, descobrimos que não fizemos aquilo que, no entanto, de algum modo lamentamos ter sido feito em nós.
Acaso não é poderosa a vossa mão, Deus onipotente, para curar todas as enfermidades da minha alma e, pela vossa graça mais abundante, extinguir até os movimentos lascivos do meu sono? Aumentareis, Senhor, mais e mais em mim os vossos dons, para que a minha alma me siga até Vós, desembaraçada do visco da concupiscência, para que não seja rebelde a si mesma e para que, até nos sonhos, não só não cometa essas torpezas das corrupções por imagens sensíveis, chegando ao fluxo da carne, mas nem sequer lhes consinta. Pois que nada de tal espécie, nem por mínimo que seja, deleite, ao ponto de poder ser contido por um aceno até no casto afeto de quem dorme, não só nesta vida mas até nesta idade, não é grande coisa para o Onipotente, que sois poderoso para fazer acima do que pedimos e entendemos. Agora, todavia, o que ainda sou neste gênero do meu mal, eu o disse ao meu bom Senhor, exultando com tremor naquilo que me destes, e lamentando aquilo em que ainda sou imperfeito, esperando que aperfeiçoareis em mim as vossas misericórdias até a paz plena, que comigo terão o meu interior e o meu exterior, quando a morte for absorvida pela vitória.