Confissões - Livro X 8
Livro X: a memória, a busca de Deus e o exame das tentações presentes
Passarei, pois, também além desta força de minha natureza, subindo por degraus até Aquele que me fez, e chego aos campos e aos amplos palácios da memória, onde estão os tesouros de inumeráveis imagens, trazidas para dentro a partir de coisas de toda espécie percebidas pelos sentidos. Ali está guardado tudo o que também pensamos, seja aumentando, seja diminuindo, seja de algum modo variando aquilo que o sentido alcançou, e tudo o mais que ali foi confiado e depositado, e que o esquecimento ainda não absorveu nem sepultou. Quando ali estou, peço que se apresente o que quero, e algumas coisas logo surgem; outras são buscadas por mais tempo e como que arrancadas de certos receptáculos mais recônditos; outras irrompem em tropel e, enquanto se busca e procura uma só, saltam para o meio como que dizendo: 'Não seremos por acaso nós?' E eu as afasto com a mão do coração do rosto da minha lembrança, até que se desanuvie o que quero e venha a apresentar-se diante dos olhos, saindo dos esconderijos. Outras se oferecem facilmente e em ordem imperturbada, conforme são pedidas, e as precedentes cedem lugar às que se seguem e, ao ceder, escondem-se, prontas para reaparecer quando eu quiser. Tudo isso se faz quando narro algo de memória.
Ali estão todas as coisas guardadas distinta e separadamente segundo seu gênero, cada qual introduzida por seu próprio acesso: como a luz e todas as cores e formas dos corpos pelos olhos; pelos ouvidos, porém, todos os gêneros de sons; todos os odores pelo acesso das narinas; todos os sabores pelo acesso da boca; e, pelo sentido de todo o corpo, o que é duro, o que é mole, o que é quente ou frio, liso ou áspero, pesado ou leve, seja externa, seja internamente ao corpo. Todas essas coisas recebe, para serem recordadas quando preciso e reconsideradas, o vasto recesso da memória e não sei que seios secretos e inefáveis dela: todas elas entram nela, cada uma por suas portas, e nela são depositadas. Contudo, não entram as próprias coisas, mas as imagens das coisas percebidas estão ali à disposição do pensamento que as relembra. E quem dirá como foram fabricadas, ainda que seja manifesto por quais sentidos foram captadas e guardadas no interior? Pois até mesmo habitando nas trevas e no silêncio, em minha memória produzo, se quero, as cores, e distingo entre o branco e o negro e entre quaisquer outras que eu queira; nem os sons irrompem e perturbam aquilo que, captado pelos olhos, considero, ainda que também eles ali estejam e jazam como que depositados à parte. Pois também a esses chamo, se me apraz, e logo se apresentam, e, em quietude da língua e mudo o gorgomilo, canto quanto quero, e aquelas imagens das cores, que não menos ali estão, não se interpõem nem interrompem, enquanto se reconsidera outro tesouro, o que afluiu dos ouvidos. Assim, as demais coisas que foram introduzidas e acumuladas pelos outros sentidos, recordo conforme me apraz, e distingo o aroma dos lírios das violetas sem nada cheirar, e prefiro o mel ao arrope, o liso ao áspero, sem então gostar nem tocar, mas apenas recordando.
Faço essas coisas dentro de mim, no átrio imenso de minha memória. Pois ali se acham a meu dispor o céu, a terra e o mar, com tudo o que neles pude perceber, exceto aquilo que esqueci. Ali também me deparo comigo mesmo e me recordo: o que, quando e onde fiz, e de que modo me afetei quando o fazia. Ali estão todas as coisas de que me lembro, quer experimentadas por mim, quer cridas. Da mesma abundância também teço com o passado ora estas, ora aquelas semelhanças das coisas, seja das experimentadas, seja das cridas a partir das que experimentei, e dali também as ações futuras, e os acontecimentos e as esperanças, e de novo medito todas estas como que presentes. 'Farei isto e aquilo', digo comigo mesmo naquele imenso seio de minha alma, cheio de imagens de tantas e tão grandes coisas, e disto ou daquilo se segue uma consequência. 'Oh, se fosse isto ou aquilo!' 'Deus afaste isto ou aquilo!' Digo comigo essas coisas e, ao dizê-las, estão à disposição as imagens de tudo o que digo, saídas do mesmo tesouro da memória, nem absolutamente diria algo delas, se estivessem ausentes.
Grande é essa força da memória, grande em demasia, meu Deus, santuário amplo e infinito. Quem chegou ao seu fundo? E esta força é de minha alma e pertence à minha natureza, mas nem eu mesmo apreendo tudo o que sou. Será, pois, a alma estreita demais para conter a si própria, de modo que onde esteja aquilo de si que ela não contém? Acaso fora dela, e não nela? Como, então, não o contém? Sobre isto se levanta em mim grande admiração, o estupor se apodera de mim. E vão os homens admirar os altos dos montes e as ingentes vagas do mar e os largíssimos cursos dos rios e o circuito do oceano e os giros dos astros, e abandonam a si mesmos, e não se admiram de que, ao falar eu de todas essas coisas, não as via com os olhos, e contudo não as diria se não visse dentro, em minha memória, os montes e as vagas e os rios e os astros que vi, e o oceano em que creio, em espaços tão imensos como se os visse fora. E todavia não os absorvi ao vê-los quando os vi com os olhos, nem eles próprios estão em mim, mas as suas imagens, e sei por qual sentido do corpo cada um foi impresso em mim.