Confissões - Livro X 42
Livro X: a memória, a busca de Deus e o exame das tentações presentes
A quem haveria de encontrar que me reconciliasse convosco? Deveria eu recorrer aos anjos? Com que prece? Com que sacramentos? Muitos, esforçando-se por voltar a Vós e não podendo por si mesmos, tentaram, segundo ouço, estas coisas, e caíram no desejo de visões curiosas, e foram julgados dignos de ilusões. Pois, soberbos, Vos buscavam com o fausto da doutrina, antes inchando o peito do que o ferindo, e atraíram a si, pela semelhança do próprio coração, conspirando e associadas à sua soberba, as potestades deste ar, pelas quais, mediante artes mágicas, fossem enganados, buscando um mediador por quem fossem purificados, e não havia. Pois era o diabo transfigurando-se em anjo de luz, e muito seduziu a carne soberba, porque ele próprio não tinha corpo carnal. Eram, com efeito, aqueles mortais e pecadores; Vós, porém, Senhor, com quem soberbamente buscavam reconciliar-se, sois imortal e sem pecado. Ora, convinha que o mediador entre Deus e os homens tivesse algo semelhante a Deus, algo semelhante aos homens, para que, sendo em ambos semelhante aos homens, não estivesse longe de Deus, ou, sendo em ambos semelhante a Deus, não estivesse longe dos homens, e assim não fosse mediador. Aquele mediador enganoso, pois, pelo qual, segundo os vossos juízos secretos, a soberba merece ser iludida, tem uma coisa em comum com os homens, isto é, o pecado; outra quer parecer ter em comum com Deus, pois, não estando coberto da mortalidade da carne, ostenta-se como imortal. Mas, visto que o salário do pecado é a morte, isto tem em comum com os homens, donde juntamente seja condenado à morte.