Confissões - Livro X 33
Livro X: a memória, a busca de Deus e o exame das tentações presentes
Os prazeres dos ouvidos mais tenazmente me haviam enredado e subjugado, mas Vos os desligastes e me libertastes. Agora, nos sons que vossas palavras animam quando cantados com voz suave e bem trabalhada, confesso, repouso um pouco; não, porém, de modo a ficar preso, mas que me posso levantar quando quero. Contudo, com as próprias sentenças, das quais aqueles sons recebem vida para serem admitidos em mim, procuram no meu coração um lugar de alguma dignidade, e a custo lhes concedo um que seja conveniente. Pois às vezes me parece atribuir-lhes mais honra do que convém, ao sentir que os nossos ânimos se movem mais religiosa e ardentemente para a chama da piedade pelas próprias palavras santas quando assim são cantadas, do que se não fossem assim cantadas, e que todos os afetos do nosso espírito, segundo a sua diversidade, têm modos próprios na voz e no canto, com os quais, por não sei que oculta familiaridade, são despertados. Mas a delícia da minha carne, à qual não convém entregar a mente para que se enerve, muitas vezes me engana, quando o sentido não acompanha a razão de modo a ficar pacientemente atrás, mas, só porque por causa dela mereceu ser admitido, tenta até precedê-la e conduzi-la. Assim, nestas coisas peco sem o sentir, e depois o sinto.
Outras vezes, porém, evitando imoderadamente esse mesmo engano, erro por excessiva severidade, e às vezes a tal ponto que desejaria afastar dos meus ouvidos, e dos da própria Igreja, toda a melodia das doces cantilenas com que se acompanha o saltério davídico; e mais seguro me parece o que muitas vezes me recordo de ter ouvido dizer acerca de Atanásio, bispo de Alexandria, que com tão moderada inflexão de voz fazia o leitor entoar o salmo, que estava mais perto de quem declama do que de quem canta. Todavia, quando me lembro das lágrimas que derramei aos cantos da Igreja nos primórdios da minha fé recuperada, e ainda agora, quando me movo não com o canto, mas com as coisas que se cantam, ao serem cantadas com voz límpida e modulação convenientíssima, reconheço de novo a grande utilidade desta instituição. Assim flutuo entre o perigo do prazer e a experiência da salubridade, e mais me inclino, não proferindo, contudo, sentença irretratável, a aprovar o costume de cantar na Igreja, para que, pelos deleites dos ouvidos, o ânimo mais fraco se erga ao afeto da piedade. Contudo, quando me acontece comover-me mais com o canto do que com a coisa que se canta, confesso que peco merecendo castigo, e então preferiria não ouvir quem canta. Eis onde estou! Chorai comigo e chorai por mim, vós que praticais dentro algum bem, donde procedem as obras. Pois vós que não o praticais, estas coisas não vos movem. Vós, porém, Senhor meu Deus, ouvi-me: olhai e vede e tende misericórdia e sarai-me, eu, a cujos olhos me tornei problema para mim mesmo; e essa é a minha enfermidade.