Confissões - Livro X 17

Livro X: a memória, a busca de Deus e o exame das tentações presentes

Grande é a força da memória, algo de pavoroso, ó meu Deus, profunda e infinita multiplicidade. E isto é o espírito, e isto sou eu mesmo. Que sou eu, pois, ó meu Deus? Que natureza sou? Uma vida vária, multiforme e veementemente imensa. Eis que nos campos, nas grutas e nas cavernas inumeráveis da minha memória, inumeravelmente cheias de inumeráveis gêneros de coisas, seja por imagens, como de todos os corpos, seja por presença, como das artes, seja por não sei que noções ou notações, como das afeições do ânimo (as quais, ainda quando o ânimo não as padece, a memória as retém, pois tudo o que está na memória está no ânimo), por todas estas coisas eu corro e voo de um lado para outro, penetro também quanto posso, e em parte alguma fim. Tão grande é a força da memória, tão grande é a força da vida no homem que vive mortalmente! Que farei, pois, ó vós, minha verdadeira vida, meu Deus? Passarei além também desta minha força que se chama memória, passarei além dela para estender-me até Vós, ó doce luz. Que me dizeis? Eis que eu, ascendendo pelo meu espírito até Vós, que permaneceis acima de mim, passarei além também desta minha força que se chama memória, querendo atingir-Vos por onde podeis ser atingido, e aderir a Vós por onde se pode aderir a Vós. Pois também têm memória os animais e as aves, do contrário não tornariam a buscar seus covis ou ninhos, nem muitas outras coisas a que se acostumam; pois nem sequer poderiam acostumar-se a coisa alguma senão pela memória. Passarei, pois, além também da memória, para atingir Aquele que me separou dos quadrúpedes e me fez mais sábio que as aves do céu. Passarei além também da memória, para onde Vos encontre, ó verdadeiramente bom, ó segura suavidade, para onde Vos encontre? Se Vos encontro fora da minha memória, esqueço-me de Vós. E como Vos encontrarei já, se não me lembro de Vós?