Confissões - Livro X 10

Livro X: a memória, a busca de Deus e o exame das tentações presentes

Quando, porém, ouço que três gêneros de questões, se uma coisa existe, o que ela é, de que natureza é, retenho as imagens dos sons com que estas palavras se formaram, e sei que esses sons passaram pelo ar com ruído e não são. Mas as coisas mesmas que por aqueles sons são significadas, nem com algum sentido do corpo as toquei, nem em lugar algum as vi, a não ser em minha mente, e na memória guardei não as imagens delas, mas elas próprias: donde tenham entrado em mim, que o digam, se podem. Pois percorro todas as portas da minha carne, e não encontro por qual delas entraram. Com efeito, os olhos dizem: "Se eram coloridas, nós as anunciamos"; os ouvidos dizem: "Se soaram, por nós foram indicadas"; as narinas dizem: "Se exalaram odor, por nós passaram"; diz também o sentido do paladar: "Se não sabor, nada me perguntes"; o tato diz: "Se não é corpóreo, não o apalpei; se não o apalpei, não o indiquei." Donde e por onde entraram estas coisas em minha memória? Não sei como. Pois, quando as aprendi, não dei crédito ao coração de outrem, mas no meu as reconheci e as aprovei como verdadeiras, e a ele as confiei, como que depositando-as donde as trouxesse à luz quando quisesse. Ali, pois, estavam mesmo antes que eu as aprendesse, mas na memória não estavam. Onde, então, ou por que, quando eram ditas, as reconheci e disse: "Assim é, é verdade", senão porque estavam na memória, mas tão remotas e recônditas, como que em cavernas mais escondidas, que, se alguém não as exumasse, advertindo-me, talvez eu não pudesse pensá-las?