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Evangelho Armênio da Infância

Autoria e Data de Composição

O Evangelho Armênio da Infância é a mais longa e detalhada das coletâneas antigas sobre a infância de Jesus. A obra é anônima e chegou até nós em armênio, mas os estudiosos a consideram tradução de um original siríaco hoje perdido. A datação do texto siríaco subjacente costuma ser situada em torno do século VI, com a tradução armênia feita pouco depois. Não há autor identificado: o livro é uma compilação que reúne dezenas de episódios, combinando material do Protoevangelho de Tiago, do Evangelho da Infância de Tomé e de tradições próprias do cristianismo oriental.

Conteúdo Principal

A obra percorre toda a história: o nascimento e a infância de Maria, a natividade na gruta de Belém, a longa adoração dos magos, a fuga ao Egito e à Síria, e os prodígios do menino até a juventude. Muitos episódios não têm paralelo nos evangelhos canônicos e refletem a imaginação devocional das igrejas orientais.

A longa adoração dos magos

O traço mais célebre da obra é o relato extenso dos magos. Aqui eles são apresentados como três reis irmãos: Melcon, rei da Pérsia, Gaspar, rei da Índia, e Baltasar, rei dos árabes, que chegam a Jerusalém à frente de um grande exército. A obra explica a origem de seu saber por meio de uma carta que Deus teria selado com o próprio dedo e entregue a Adão, transmitida então de Sete a Noé, depois a Sem, Abraão e Melquisedeque, até alcançar os persas. No estábulo, cada rei tem uma visão distinta do menino, e os três relatos só se reconciliam depois. Esse desenvolvimento, ausente de Mateus, é uma das passagens mais citadas do texto, e a tradição que nomeia os magos como Melcon, Gaspar e Baltasar é frequentemente associada a esta obra armênia.

Uma fonte siríaca por trás do texto

A obra é um testemunho da literatura de infância no Oriente cristão. Por trás do armênio está um original siríaco perdido, e a mesma área cultural produziu o Evangelho Árabe da Infância, com o qual o texto armênio compartilha vários episódios. Os estudiosos costumam apontar que tanto a versão armênia quanto a árabe bebem de tradições siríacas comuns, ainda que a relação exata entre elas seja debatida. Vários nomes próprios, como os dos magos, são acréscimos dessa tradição e não constam dos textos canônicos.

Jesus confiado a Gamaliel

Um dos episódios mais conhecidos é o de Jesus enviado à escola do mestre Gamaliel, que fica perplexo diante da sabedoria do menino. A cena retoma o tema, presente também na Infância de Tomé, do mestre humano superado pelo aluno divino. O nome Gamaliel, ausente das narrativas de infância canônicas, é um dos elementos próprios desta tradição oriental, e a passagem aparece entre as mais lembradas da obra.

Texto e tradução

A única tradução completa em inglês é a de Abraham Terian, The Armenian Gospel of the Infancy (Oxford University Press, 2008), que ainda está sob direitos autorais. A versão aqui apresentada foi traduzida do francês de Paul Peeters, nas Évangiles apocryphes (1914), que verteu o armênio e está em domínio público. Por ser uma obra extensa e de tradição manuscrita complexa, a numeração e a divisão dos capítulos seguem a edição francesa. Nenhuma tradição cristã incluiu o livro no cânon bíblico, embora episódios seus, como os nomes dos magos, tenham circulado amplamente na devoção e na arte do cristianismo oriental.