Capítulos

Evangelho Armênio da Infância
Autoria e Data de Composição
O Evangelho Armênio da Infância é a mais longa e detalhada das coletâneas antigas sobre a infância de Jesus. A obra é anônima e chegou até nós em armênio, mas os estudiosos a consideram tradução de um original siríaco hoje perdido. A datação do texto siríaco subjacente costuma ser situada em torno do século VI, com a tradução armênia feita pouco depois. Não há autor identificado: o livro é uma compilação que reúne dezenas de episódios, combinando material do Protoevangelho de Tiago, do Evangelho da Infância de Tomé e de tradições próprias do cristianismo oriental.
Conteúdo Principal
A obra percorre toda a história: o nascimento e a infância de Maria, a natividade na gruta de Belém, a longa adoração dos magos, a fuga ao Egito e à Síria, e os prodígios do menino até a juventude. Muitos episódios não têm paralelo nos evangelhos canônicos e refletem a imaginação devocional das igrejas orientais.
- Joaquim e Ana recebem a promessa de uma filha, em moldura herdada do Protoevangelho de Tiago — (Evangelho Armênio da Infância 1)
- A anunciação a Maria e a defesa de sua virgindade — (Evangelho Armênio da Infância 5)
- O nascimento de Jesus na caverna de Belém, sob o decreto de Augusto — (Evangelho Armênio da Infância 8)
- Os magos chegam como três reis irmãos e adoram o menino, guiados por uma carta selada desde Adão — (Evangelho Armênio da Infância 11)
- A apresentação no templo, quarenta dias após o nascimento — (Evangelho Armênio da Infância 12)
- O massacre dos inocentes em Belém e o engano de Herodes pelos magos — (Evangelho Armênio da Infância 13)
- A fuga para o Egito e a queda dos ídolos diante do menino — (Evangelho Armênio da Infância 15)
- A passagem pela Síria e os prodígios de Jesus com as outras crianças — (Evangelho Armênio da Infância 17)
- Jesus na escola de Gamaliel e os milagres com a madeira — (Evangelho Armênio da Infância 20)
- Jesus em Arimateia e a ressurreição de Jônatas — (Evangelho Armênio da Infância 22)
- O julgamento que Jesus profere entre dois soldados — (Evangelho Armênio da Infância 28)
- Jesus e o mestre Zaqueu na escola, episódio herdado da Infância de Tomé — (Evangelho Armênio da Infância 30)
O nascimento de Maria e a natividade
A longa adoração dos magos
A fuga para o Egito e a Síria
Os milagres e a escola
A longa adoração dos magos
O traço mais célebre da obra é o relato extenso dos magos. Aqui eles são apresentados como três reis irmãos: Melcon, rei da Pérsia, Gaspar, rei da Índia, e Baltasar, rei dos árabes, que chegam a Jerusalém à frente de um grande exército. A obra explica a origem de seu saber por meio de uma carta que Deus teria selado com o próprio dedo e entregue a Adão, transmitida então de Sete a Noé, depois a Sem, Abraão e Melquisedeque, até alcançar os persas. No estábulo, cada rei tem uma visão distinta do menino, e os três relatos só se reconciliam depois. Esse desenvolvimento, ausente de Mateus, é uma das passagens mais citadas do texto, e a tradição que nomeia os magos como Melcon, Gaspar e Baltasar é frequentemente associada a esta obra armênia.
Uma fonte siríaca por trás do texto
A obra é um testemunho da literatura de infância no Oriente cristão. Por trás do armênio está um original siríaco perdido, e a mesma área cultural produziu o Evangelho Árabe da Infância, com o qual o texto armênio compartilha vários episódios. Os estudiosos costumam apontar que tanto a versão armênia quanto a árabe bebem de tradições siríacas comuns, ainda que a relação exata entre elas seja debatida. Vários nomes próprios, como os dos magos, são acréscimos dessa tradição e não constam dos textos canônicos.
Jesus confiado a Gamaliel
Um dos episódios mais conhecidos é o de Jesus enviado à escola do mestre Gamaliel, que fica perplexo diante da sabedoria do menino. A cena retoma o tema, presente também na Infância de Tomé, do mestre humano superado pelo aluno divino. O nome Gamaliel, ausente das narrativas de infância canônicas, é um dos elementos próprios desta tradição oriental, e a passagem aparece entre as mais lembradas da obra.
Texto e tradução
A única tradução completa em inglês é a de Abraham Terian, The Armenian Gospel of the Infancy (Oxford University Press, 2008), que ainda está sob direitos autorais. A versão aqui apresentada foi traduzida do francês de Paul Peeters, nas Évangiles apocryphes (1914), que verteu o armênio e está em domínio público. Por ser uma obra extensa e de tradição manuscrita complexa, a numeração e a divisão dos capítulos seguem a edição francesa. Nenhuma tradição cristã incluiu o livro no cânon bíblico, embora episódios seus, como os nomes dos magos, tenham circulado amplamente na devoção e na arte do cristianismo oriental.