Evangelho Armênio da Infância 14
A mais longa e detalhada das coletâneas da infância de Jesus, traduzida de um original siríaco hoje perdido. Reúne dezenas de episódios: o nascimento e a infância de Maria, a natividade na gruta, a longa adoração dos magos (três reis irmãos e o livro selado desde Adão), a fuga ao Egito e os prodígios do menino. Sobrevive em armênio e foi a fonte mais rica da tradição infantil cristã oriental
Herodes mata o sumo sacerdote Zacarias no templo
Mas o tirano ímpio, não encontrando meio de alcançar seu objetivo, mandou então fazer investigações junto a Zacarias a respeito de João, para saber se ele era seu filho único e se estava destinado a reinar sobre Israel. Enviou, portanto, soldados a Zacarias para lhe pedir o pequeno João. Disse a Zacarias: "Ouvi de muitas pessoas que o teu filho está destinado a reinar sobre a terra da Judeia; mostra-o a mim, para que eu o veja." Mas quando Zacarias ouviu essas palavras do celerado ímpio, disse-lhe: "Pela vida do Senhor, não sei do que estás falando."
Quando Isabel ouviu isso, tomou o pequeno João e fugiu para um lugar deserto da montanha, onde procurou pôr a salvo a vida da criança. Depois, sem fôlego, chorava amargamente e derramava suas lágrimas diante do Senhor, dizendo: "Senhor, Deus de nossos pais, Deus de Israel, ouvi a oração de vossa serva; tratai-me segundo vossa piedade benevolente para com os homens e arrancai minha alma das mãos de Herodes e da matilha criminosa e enfurecida de seus exércitos. Que a terra se abra, que ela engula a mãe com seu filho, e que meus olhos não vejam a morte de meu filho." Enquanto ela dizia essas palavras, no mesmo instante a montanha se abriu e lhe deu acesso. E escondeu a mãe com seu filho. Uma nuvem luminosa veio cobri-los e os guardou sãos e salvos. E o anjo do Senhor, descendo sobre eles, serviu-lhes de guardião e de defesa.
Mas Herodes enviou uma segunda vez seus oficiais a Zacarias e disse: "Dize-me onde está escondido o teu filho; mostra-o a mim agora, para que eu o veja." Zacarias disse: "Estou dedicado ao serviço do templo; minha casa não é aqui, mas na região montanhosa da Galileia. Não sei o que foi feito da mãe com seu filho." E o oficial veio relatar as palavras de Zacarias. Mais uma vez Herodes enviou um mensageiro a seus generais e lhes disse: "Ide dizer isto a Zacarias: 'Eis o que diz o rei de Israel: Tu escondeste teu filho dos meus olhos e não quiseste mostrá-lo a mim francamente, porque sei que teu filho deve reinar sobre a casa de Israel. Acaso poderás escapar de mim com palavras e evitar-me com vãos pretextos? Não será assim. Se não o trazes a mim de boa vontade, eu o tomarei à força, e te destruirei junto com ele.'"
Zacarias disse: "Pela vida do Senhor! Não sei o que foi feito da mãe e de seu filho." E os enviados foram relatar a Herodes as palavras de Zacarias. Mas o tirano ímpio, cheio de toda espécie de iniquidade, enviou de novo seus oficiais e disse: "Esta é a terceira vez que te envio minhas ordens. Não me escutaste e não tiveste medo de minhas ameaças. Não sabes que teu sangue está sob minha mão e que ninguém te salvará, nem mesmo aquele em quem esperas?"
Quando foram relatar essas palavras a Zacarias, Zacarias lhes disse: "Sei que quereis meu sangue e que estais decididos a derramá-lo sem razão. Mas ainda que façais perecer meu corpo com uma morte cruel, o Senhor, que me fez e que me criou, acolherá minha alma." E foram relatar a Herodes o que Zacarias havia dito. Mas esse ímpio, na maldade crescente de seu coração, não lhe deu resposta alguma. E naquela mesma noite o tirano ímpio enviou soldados, que se introduziram furtivamente no templo e mataram Zacarias junto ao altar, no tabernáculo da aliança. E ninguém, nem dos sacerdotes nem do povo, soube de nada.
Mas à hora da oração ritual, permaneceram à espera, procurando vê-lo, e não o encontraram. Depois, quando surgiu a aurora, no momento de cumprir a oração, os sacerdotes e o povo se reuniram para ir saudar-se mutuamente e diziam entre si: "Que aconteceu ao sumo sacerdote Zacarias? Onde estaria ele?" Espantavam-se com sua demora e diziam: "Ele cumpre primeiro sua oração privada; ou então teve alguma visão no templo."
Mas um dos sacerdotes, que se chamava Filipe, entrou audaciosamente no Santo dos Santos e percebeu o sangue coagulado junto ao altar de Deus. E eis que uma voz articulada saiu do tabernáculo; ela dizia: "O sangue inocente foi derramado em vão; e ele não será apagado de cima dos filhos da casa de Israel, até a completa vingança." Quando os sacerdotes e toda a multidão do povo ouviram isso, rasgaram suas vestes e, derramando cinza sobre suas cabeças, disseram: "Ai de nós! Ai de nossos pais! Estamos todos condenados a este desastre e a esta ignomínia."
E os sacerdotes, penetrando no tabernáculo, viram o sangue de Zacarias coagulado, como uma pedra, junto ao altar de Deus; mas não viram seu corpo. E, tomados de estupor, disseram uns aos outros que sua perdição estava consumada. E diziam: "Que foi feito de seu corpo, que não se viu em parte alguma?" Vaguearam por toda parte à sua procura e não o encontraram. E cada um suspeitava consigo mesmo que alguém havia furtivamente levado seu corpo e fora escondê-lo em algum lugar. Em seguida, tomando grande luto em sua honra, os filhos de Israel o choraram durante trinta dias. Fizeram buscas em muitos lugares e não encontraram seu corpo. Assim ocorreu o assassinato de Zacarias.