Evangelho Armênio da Infância 2

A mais longa e detalhada das coletâneas da infância de Jesus, traduzida de um original siríaco hoje perdido. Reúne dezenas de episódios: o nascimento e a infância de Maria, a natividade na gruta, a longa adoração dos magos (três reis irmãos e o livro selado desde Adão), a fuga ao Egito e os prodígios do menino. Sobrevive em armênio e foi a fonte mais rica da tradição infantil cristã oriental

O nascimento da virgem Maria

E Joaquim, tendo se levantado cedo, chamou seus pastores e lhes disse: "Tragam dez cordeiros brancos: esta será a oferta para o templo augusto do meu Deus; e doze novilhos: estes serão para os sacerdotes, os escribas e os ministros, que são os servidores da assembleia; e cem carneiros: estes serão para todo o povo de Israel." E quando Joaquim tomou estas ofertas, levou-as ao templo do Senhor e, tendo se prostrado diante dos sacerdotes e de toda a assembleia, apresentou diante deles os dons que trouxera. Estes, ao vê-lo, alegraram-se e o felicitaram, porque tinha agradado ao Senhor aceitar de suas mãos estas santas ofertas. E a multidão das pessoas que ali se encontravam estava maravilhada e dizia: "Louvado seja o Senhor Deus de Israel, que realizou os votos do vosso coração. Ide em paz para a vossa casa, e o Senhor estará convosco para sempre. Ele vos dará um filho bendito e um rebento santificado do fruto das vossas entranhas."
E Joaquim, tendo se prostrado diante dos sacerdotes que ali se encontravam, levantou-se, entrou no templo e, pondo-se em oração, agradecia ao Senhor e dizia: "Senhor Deus de Israel, Deus de nossos pais, assim como ouvistes vosso servo e lhe fizestes larga medida de misericórdia, agora vos imploro, Senhor. Que me concedais um filho, de sexo masculino ou feminino, e eu vo-lo darei, Senhor, para estar a vosso serviço neste templo, todos os dias de sua vida." E Joaquim, tendo assim falado, levantou-se e foi alegremente para a sua casa.
Quando três meses se passaram, a criança estremeceu no ventre de sua mãe. E Ana, cheia de grande alegria, disse num arroubo de júbilo: "Pela vida do Senhor, se me for concedida uma criança de bênção, de sexo masculino ou feminino, eu a dou ao templo santo, por todos os dias de sua vida." E Ana completou cento e oitenta dias de sua gravidez, o que faz seis meses.
Joaquim partiu com presentes; dirigiu-se ao templo santo e, diante dos sacerdotes, ofereceu os sacrifícios que prometera cumprir integralmente no início do ano. E enquanto erguiam as vítimas sobre o altar dos holocaustos e as imolavam, à medida que o sangue corria, viram que ele não continha defeito algum, e, cheios de grande alegria, renderam graças a Deus.
Mas Joaquim, depois de ter cumprido suas ofertas, tomou um cordeiro e, tendo primeiro feito a oblação, sacrificou-o sobre o altar; e todos viram, por um prodígio inesperado, uma espécie de leite branco jorrar da artéria em vez de sangue. Diante desta visão, os sacerdotes e todo o povo ficaram tomados de espanto e admiração, pois jamais se vira prodígio semelhante ao que se cumprira neste sacrifício. O sumo sacerdote Eleazar disse a Joaquim: "Dizei-nos: em nome de quem apresentastes esta oferta, este cordeiro que por último oferecestes em sacrifício sobre o altar?"
Joaquim respondeu: "As primeiras ofertas eu as prometi ao meu Senhor, como um voto que eu devia cumprir. Mas este último cordeiro é oferecido em nome do meu filho: eu tinha resolvido fazer isto por ele." O sumo sacerdote lhe disse: "Vedes este sinal que o Senhor vos mostrou em nome do vosso filho?" O sumo sacerdote disse: "O leite que acaba de jorrar desta artéria tem um significado para o vosso filho: pois o que nascerá do seio de sua mãe será uma filha, uma virgem impecável e santa. E esta virgem conceberá sem a intervenção de homem; nascerá dela um varão que se tornará um grande monarca e rei de Israel." Ao ouvir estas coisas, todos os que ali se encontravam ficaram admirados. Joaquim dirigiu-se em silêncio para a sua casa e contou à sua esposa Ana os prodígios que tinham acontecido. E, rendendo graças ao seu Deus, alegraram-se e disseram ao Senhor: "Seja feita a vossa vontade."
E quando a gravidez de Ana chegou aos duzentos e dez dias, o que faz sete meses, subitamente, à sétima hora, Ana deu à luz a sua santa criança, durante o vigésimo quarto dia do mês, que é o 8 de setembro. No primeiro dia, ela perguntou à parteira: "O que dei à luz?" Esta respondeu: "Destes à luz uma menina, mas extremamente bela, brilhante e radiante de se ver, sem mancha nem mácula alguma." Ana disse: "Bendito seja o Senhor Deus de Israel, que ouviu as súplicas de seus servos, que nos mostrou sua ampla misericórdia e que fez por nós grandes coisas, das quais estamos cheios de alegria. Agora meu coração está solidamente estabelecido no Senhor, e minha esperança foi exaltada em Deus meu Salvador."
Quando a criança completou três dias, Ana ordenou à parteira que a lavasse e a levasse ao seu quarto com respeito. Tendo-lhe apresentado a criança, ela lhe deu o peito e, fazendo-a mamar, alimentava-a com o seu leite. E, numa efusão de ternura, chamou-a com o nome de Maria. De dia para dia, a criança crescia e progredia, e sua mãe, nos transportes de sua alegria, embalava-a entre os braços. Foi assim que seus pais a criavam e a alimentavam. Quando Maria atingiu quarenta dias, seus pais a tomaram com respeito e, levando numerosas ofertas, conduziram-na ao templo do Senhor, segundo a regra de sua tradição.
E a pequena Maria crescia e progredia de dia para dia. Quando ela atingiu seis meses, sua mãe permitiu que tentasse caminhar. E quando se afastou o espaço de três passos, voltou para trás e veio lançar-se nos braços de sua mãe. E sua mãe, erguendo-a nos braços, lhe dizia, acariciando-a: "Maria, santa mãe das virgens; ó tu, raiz de bela floração; rebento de nobre linhagem; de ti se levantará a aurora, o astro precursor da luz, semelhante à lua mais que qualquer estrela, luz do dia mais brilhante que o esplendor do sol, alvorada do sol do Oriente!" Assim falava Ana, dizendo estas palavras e ainda outras. E acariciando a santa criança, dizia: "Pela vida do Senhor, teus pés não pisarão mais o chão até o momento em que fores conduzida ao templo santo." E Joaquim disse: "Sim. Falaste bem." E a criança permaneceu na casa de seu pai, até que atingiu a idade de três anos. Assim seja!