Evangelho Armênio da Infância 3
A mais longa e detalhada das coletâneas da infância de Jesus, traduzida de um original siríaco hoje perdido. Reúne dezenas de episódios: o nascimento e a infância de Maria, a natividade na gruta, a longa adoração dos magos (três reis irmãos e o livro selado desde Adão), a fuga ao Egito e os prodígios do menino. Sobrevive em armênio e foi a fonte mais rica da tradição infantil cristã oriental
A educação de Maria no templo e o pontificado de Zacarias
Joaquim disse a Ana: "Os dias da criança que nos nasceu estão cumpridos. Manda chamar todas as filhas dos hebreus, as virgens consagradas a Deus. Que cada uma tome na mão uma lâmpada e conduzam a criança, com santo respeito, ao templo do Senhor, como convém." E, tendo-a levado, colocaram-na no terceiro degrau do tabernáculo. E o Senhor Deus lhe deu graça e sabedoria. Um anjo de Deus, descendo do céu, servia-a à mesa, e ela era alimentada pelos anjos do Espírito Santo. E ali, no tabernáculo, ela ouvia incessantemente a linguagem e o canto dos anjos.
Maria tinha três anos quando seus pais a conduziram ao templo. Ela permaneceu ali doze anos. Ao fim de um ano, seus pais morreram. Maria sofreu uma viva aflição pela perda do pai e da mãe, e guardou luto por trinta dias. Estabelecida no templo, Maria foi criada e cresceu à maneira das mulheres, como as outras filhas dos hebreus que se encontravam ali com ela, até que chegou à idade de quinze anos.
Naquele ano, morreu o grande pontífice Eleazar. Os filhos de Israel, tendo guardado luto, choraram por ele durante trinta dias. Depois, passados todos esses acontecimentos, houve uma assembleia dos sacerdotes, dos anciãos e de outros notáveis, que decidiram designar um sumo sacerdote do templo e consultar a sorte. E a sorte caiu sobre Zacarias, filho de Baraquias. Todos os sacerdotes lhe impuseram as mãos e o estabeleceram ministro do santo altar. Ora, Ana e Isabel eram parentes; ambas eram estéreis e não tinham filhos. E, desde a gravidez de Ana e o nascimento de Maria, haviam passado quatorze anos, até o momento em que Zacarias se tornou sumo sacerdote do templo.
Veio o tempo em que Zacarias foi feito sumo sacerdote; sua mulher era estéril, assim como Ana. Depois disso, os sacerdotes e todo o povo refletiram e disseram uns aos outros: "É extremamente lamentável que não tenhamos compreendido mais cedo o que fazíamos. Por que estabelecemos este como sumo sacerdote, havendo um defeito que se opõe a isso: sua mulher é estéril e ele não tem o filho da bênção?" Um daqueles sacerdotes, que tinha por nome Levi, disse: "Isto nos parece justo; com vossa permissão, eu lhe direi." Os sacerdotes disseram: "Declara a coisa só a ele, em segredo, para que saiba do que se trata, e não fales a nenhum outro." O sacerdote disse: "Bem. Não o direi senão a ele e a nenhum outro."
Certo dia, então, quando se acabava o tempo da oração, o sacerdote foi secretamente encontrar Zacarias e lhe manifestou o que havia sido dito. Ao ouvir isso, Zacarias ficou muito perturbado e disse consigo mesmo: "Que farei e que resposta darei? Pois quanto a mim, não tenho consciência de ter feito nada de mal, e se me odeiam sem causa, apesar de minha inocência, cabe somente ao Senhor examinar isso. Se eu repudiar minha esposa, sem poder alegar nenhuma falta de sua parte, cometerei um grave erro. E se eu me presumir culpado de um delito pelo qual mereço ser destituído e, sem dizer nada, abdicar do serviço do santo altar e do pontificado, isso será muito penoso para mim. Que será de mim, então, pois uma grave perplexidade atormenta minha alma?"
Enquanto se entregava a esses pensamentos e a essas reflexões, veio a hora da oração ritual, em que devia depositar o incenso diante do Senhor. E ele estava de pé no templo, junto ao santo altar de Deus, e, derramando suas lágrimas diante do tabernáculo, orava deste modo: "Senhor, Deus de nossos pais, Deus de Israel, olha para mim com tua misericórdia, eu, teu servo, que me apresento cheio de confusão diante de tua majestade e que imploro a graciosa doçura de tua benevolência. Não desprezes teu servo. Se me julgas digno de servir teu santo altar, usa para comigo de tua terna bondade para com os homens, ó tu que somente és misericordioso e todo-poderoso. A ti a glória por todos os séculos. Assim seja!"
Assim falou o sumo sacerdote Zacarias. Ele se encontrava à direita do santo altar e, prostrado, adorava o Senhor. E eis que um anjo de Deus, aparecendo-lhe ali no tabernáculo, lhe disse: "Não temas, Zacarias, pois tuas orações foram atendidas e teus pedidos chegaram diante de Deus. Eis que tua mulher Isabel conceberá e dará à luz um filho. E tu lhe darás o nome de João." Zacarias disse: "De que maneira saberei isso, visto que sou velho e que minha mulher é avançada em idade? Como me acontecerá isso?" O anjo disse: "Visto que não me escutaste e que não creste em minhas palavras, eis que ficarás mudo e incapaz de falar, até o dia em que essas coisas te acontecerem." E no mesmo instante, Zacarias foi atingido por mutismo no templo e, tendo-se prostrado em silêncio diante do altar, batia no peito lamentando-se e chorava amargamente.
Ora, os sacerdotes e a multidão do povo que ali se encontravam notavam com espanto e surpresa que ele se demorava no templo. E, tendo-se aproximado dele, os sacerdotes o encontraram atingido por mutismo. Ele não podia falar e já não se explicava senão por gestos da mão. Depois, quando passou a festa dos santos tabernáculos, no dia quinze do mês de tesrin, que é o dia dois de outubro, as primeiras solenidades chegaram ao fim. No dia 22 de tesrin, que é o 9 de outubro, Isabel concebeu. E no dia 16 do mês de tamuz, que é o 5 de junho, ocorreu o nascimento de João Batista. Glória a Cristo. Assim seja!