Evangelho Armênio da Infância 17
A mais longa e detalhada das coletâneas da infância de Jesus, traduzida de um original siríaco hoje perdido. Reúne dezenas de episódios: o nascimento e a infância de Maria, a natividade na gruta, a longa adoração dos magos (três reis irmãos e o livro selado desde Adão), a fuga ao Egito e os prodígios do menino. Sobrevive em armênio e foi a fonte mais rica da tradição infantil cristã oriental
A fuga para a Síria e os prodígios com as crianças
E, naquela noite, José se levantou, tomou o menino e sua mãe, e partiu para a terra da Síria, a uma cidade que se chamava Sahaprau. Jesus tinha então cinco anos e três meses. E, quando entrava pela porta da cidade, onde havia estátuas de deuses, aconteceu que os demônios, vendo passar Jesus, soltaram um grito e disseram: "Está chegando um menino, filho de um rei, de um grande monarca, que vai transtornar a nossa cidade e expulsar-nos da nossa morada. Vinde e ficai de sobreaviso, para que ele não se aproxime de nós. Em que deserto nos esconderemos?" Ao ouvir isso, os chefes dos falsos sacerdotes, os falsos pontífices e os servidores dos ídolos reuniram-se no templo dos ídolos e disseram: "Que voz soltou esse grito que nos apavora?" E, no mesmo instante, todas as estátuas dos falsos deuses estremeceram e, caindo ao chão, despedaçaram-se.
Ora, José, tendo entrado na cidade, alojou-se em certo lugar e ali permaneceu. Jesus circulava por toda parte ao redor da cidade. Chegou ao lugar onde as crianças estavam reunidas e sentou-se à beira da água, junto das nascentes. Tendo apanhado um pouco de poeira, lançou-a na água. As crianças vieram para beber; viram a água transformada em sangue e, atormentadas pela sede, choravam. Tomando um cântaro, ele o mergulhou imediatamente na fonte e, tirando água, deu-lhes de beber. E, de novo, tendo tirado água da fonte, derramou-a sobre elas, e as roupas de todas ficaram como que tingidas de sangue. E os pequenos inocentes puseram-se a chorar diante dele. Jesus chamou as crianças com ar afável; passou a mão sobre elas e disse: "Não choreis. Eis que não há mais manchas nas vossas roupas." E as crianças ficaram tomadas de alegria ao ver o prodígio operado por Jesus.
Num outro dia, Jesus foi ter com as crianças, no lugar onde estavam reunidas, e lhes disse: "Vinde; iremos a um lugar afastado e ali caçaremos pássaros para capturá-los." Elas disseram: "Sim." E, levantando-se, foram a um lugar conhecido, numa planície. Ali permaneceram o dia inteiro, mas não conseguiram apanhar pássaros. Era um dia de verão, e o calor tórrido da atmosfera as incomodava enormemente. Vendo isso, Jesus teve pena delas e, estendendo-lhes a mão, levantou-as e lhes disse: "Não temais. Levantai-vos. Iremos até aquela grande rocha que está à nossa frente e descansaremos à sua sombra." Quando chegaram lá e se reuniram no lugar indicado, não puderam suportar a violência do calor. E muitos daqueles pequenos inocentes caíam como mortos, sem fôlego, e com os olhos fixos olhavam para Jesus.
Ora, Jesus, tendo-se levantado, pôs-se de pé no meio delas e, com sua vara, golpeou a rocha, e no mesmo instante jorrou daquela rocha uma fonte de água abundante e deliciosa, da qual deu de beber a todas. Essa fonte existe ainda hoje. Quando todas beberam e se reanimaram, levantaram-se e adoraram a Jesus. E, como Jesus estendia a mão sobre a água, uma multidão de peixes ali apareceu. E ele ordenou às crianças que os apanhassem; e estas apanharam numerosos peixes. Depois juntaram lenha. Essa lenha incendiou-se sem que lhe pusessem fogo. Assaram os peixes, comeram-nos e ficaram saciadas. Apanharam ainda numerosos peixes, e todas se foram alegres para suas casas. Ali puseram-se a contar os prodígios que Jesus tinha feito. Mostraram os peixes que tinham apanhado na pesca, e muita gente creu nele.
Ora, aqueles dentre as crianças que eram fortes e vigorosos chegaram em casa a tempo e cedo; os menores só voltaram mais tarde. Um menininho de três anos, tendo-se perdido na planície, ficou sem fôlego, caiu no chão e adormeceu. Durante a noite, despertou e, abrindo os olhos, olhou para todos os lados e não viu ninguém. Então, faltando-lhe a coragem, pôs-se a chorar. Permaneceu ali três dias. A noite inteira vagou pela planície e afastou-se da região, sem que nenhuma das crianças soubesse o que tinha sido dele. Depois, a fome, a sede e o ardor do sol separaram-lhe a alma do corpo.
Os pais do menino interrogaram as crianças, dizendo-lhes: "Onde está o nosso menininho, que vos seguiu? Que foi feito dele?" Elas disseram: "Não sabemos." Seus pais disseram: "Como é que não sabeis que ele vos seguia?" As crianças disseram: "Sabemos que ele nos seguia, mas depois não pudemos saber o que foi feito dele." Seus pais disseram: "A que hora vistes que ele ainda estava convosco?" As crianças disseram: "Até o meio-dia, todos nós o vimos. Mas quando o calor do sol nos incomodou e nos pôs a todos em fuga, perdemo-nos de vista. E quando o pequeno Jesus nos reuniu e nos deu de beber da água tirada da rocha, não vimos a criança naquele lugar. Supusemos que tivesse voltado para casa."
Então os pais da criança, tendo-se levantado, foram ter com o juiz da cidade e lhe contaram toda a história. Este ordenou que reunissem todas as crianças diante dele e pôs-se a interrogá-las, dizendo: "Meus filhos, dizei-me a verdade; que foi feito desse menino?" Elas lhe disseram: "Ó juiz, escutai-nos. Ontem de manhã, quando nos havíamos reunido de comum acordo e queríamos ir brincar, Jesus, o filho de José, chegou com outras criancinhas que se tinham juntado a ele. Fizemos notar que íamos partir para um lugar afastado. E, como aquela criança não queria voltar, deixamo-la lá e partimos." O juiz disse: "Quando vos reunistes no mesmo lugar, alguém dentre vós o viu?" Elas disseram: "Sim: ele esteve conosco o dia inteiro, até o meio-dia. Quando o calor do sol nos incomodou, dispersamo-nos daquele lugar e perdemo-nos de vista."
O juiz disse: "Levantai-vos; ide à procura dele, até que o tragais morto ou vivo." Elas foram bater os arredores e não o encontraram. De volta diante do juiz, disseram-lhe: "Não o encontramos." O juiz disse: "Que metestes na cabeça? Pensais que conseguireis escapar-me pela astúcia? Não será assim. Dizei-me: qual era o objetivo da vossa expedição? Quem convidou essa criança e a levou consigo?" As crianças disseram: "Ninguém a queria; ela veio por si mesma." O juiz disse: "Não dizeis a verdade, o que fará com que pereçais todos."
Um dentre eles disse: "Conheceis Jesus, o filho do velho José? Ele estava conosco, encontrava-se à nossa frente, e nos levou consigo: foi ele que nos meteu nesta armadilha de morte." Seus companheiros disseram: "E que mal nos fez ele? Quando estávamos morrendo de sede, sob o calor tórrido, foi ele que, tirando água da rocha, nos saciou; deu-nos peixes para comer, e depois pudemos voltar a tempo para casa." Outras crianças disseram: "Vinde! Lancemos sobre ele esta acusação, já que é desconhecido e estrangeiro à nossa cidade. E, aliás, não sabeis que é por causa dele que estamos sob o golpe desta aflição e destes tormentos?" E, soltando um grito, foram ter com o juiz e lhe disseram: "Por que nos condenais apesar da nossa inocência?" O juiz disse: "Se sois inocentes, designai aquele que é digno de morte." As crianças disseram: "O filho de um velho estrangeiro levou essa criança consigo, e não sabemos o que ele lhe fez." O juiz disse: "Por que não falastes dele antes?" As crianças disseram: "Cremos que isso seria uma falta; pois ele é muito pobre e reduzido à mendicância."
O juiz ordenou que chamassem Jesus. Não o encontraram. Então prenderam José e, à força, fizeram-no comparecer diante do tribunal. O juiz disse: "Velho, de onde viestes e para onde ides?" José disse: "Sou de uma região distante e percorro a terra como estrangeiro desterrado." O juiz disse: "Onde está o vosso filho?" José disse: "Que quereis dele?" O juiz disse: "Não sabeis que o vosso filho foi brincar levando todas as crianças da cidade, e um menininho não voltou? Dizei-me, pois: onde está o vosso filho e que fez ele dessa criança?" José disse: "Quanto a isso, eu o ignoro." O juiz disse: "Não escapareis das minhas mãos com tais desculpas, sem que me tragais a criança morta ou viva." José disse: "Sou velho, como poderei ficar em busca o dia inteiro?" O juiz disse: "Talvez o encontreis logo em algum lugar."
E José, fazendo-se preceder pelo menino Jesus, foi a cerca de doze milhas da cidade, e encontraram na planície a criança, que tinha sucumbido ao ardor do sol, como se tivesse sido queimada no fogo. Todo o seu corpo, assim como suas roupas, estava enegrecido de gordura, e todas as articulações do seu corpo estavam desconjuntadas. Tendo visto isso, voltaram à cidade e informaram os pais dela. Estes, tendo ido ao lugar indicado, encontraram a criança; e, soltando um grito, feriram-se a si mesmos com pedras. Depois, envolvendo o corpo dela num lençol, levantaram-no e levaram-no para a cidade. E todo o povo da cidade, ao vê-lo, compadecia-se dele.
Então o juiz ordenou que colocassem Jesus no meio do tribunal e lhe disse: "Criança, por que fizeste esse mau ato e por que atraíste essa desgraça sobre a nossa cidade?" Jesus disse: "Ó juiz, não pratiqueis esse ato de iniquidade, que não é permitido a ninguém enunciar ou ouvir." O juiz disse: "Que devo então fazer entre dois direitos opostos?" Jesus disse: "Se agirdes com sinceridade, vossos julgamentos serão justos; senão, cometereis um grande pecado." O juiz disse: "Não me respondais desse modo para me dar lição diante de todo mundo. Não ajo de má-fé, mas com justiça." Jesus disse: "Se agísseis com sinceridade, teríeis primeiro feito a vossa investigação cuidadosamente, segundo os testemunhos, e depois julgaríeis conforme as leis." O juiz disse: "Como posso fazer uma investigação sobre o que dizeis de vós mesmo: 'Sou inocente'? E quem então fez esse mau ato?" Jesus disse: "Recebeis o testemunho daqueles que me imputam uma coisa caluniosa, e não credes na verdade das minhas palavras; mas dentro em pouco sereis confundido." O juiz disse: "Fazei como quiserdes."
E Jesus, tendo-se levantado, veio colocar-se de pé junto ao morto e exclamou em alta voz: "Moni, filho de Saruhi, levanta-te, ergue-te depressa sobre os teus pés e dize quem foi a causa da tua morte." E este se ergueu, sentando-se. Seus pais e seus outros conhecidos soltaram um grito em direção a ele e, apertando-o contra o coração, abraçavam-no, dizendo-lhe: "Meu filho, quem te devolveu a vida?" E ele disse: "O pequeno Jesus, o filho do velho." Diante disso, os sacerdotes dos ídolos prostraram-se diante de Jesus e interrogaram a criança, dizendo-lhe: "Meu filho, quem causou a tua perda?"
A criança disse: "Ninguém: são todos inocentes. Não condeneis Jesus, pois ele não é responsável pelo meu sangue. Eu me tinha perdido e, de fome e de sede, minha alma desfaleceu, e não me aconteceu outra coisa que eu saiba." Jesus disse: "Ó juiz iníquo, não é injustamente que queríeis condenar-me e mandar-me à morte?" E o juiz, confundido, não sabia o que responder. A criança permaneceu viva cerca de três horas, até o momento em que todos, tendo-a visto, ficaram cheios de admiração. E de novo Jesus disse à criança: "Adormece agora." E no mesmo instante ela adormeceu. E, depois de ter assim falado, Jesus desapareceu de diante dos olhos deles.