Evangelho Armênio da Infância 28
A mais longa e detalhada das coletâneas da infância de Jesus, traduzida de um original siríaco hoje perdido. Reúne dezenas de episódios: o nascimento e a infância de Maria, a natividade na gruta, a longa adoração dos magos (três reis irmãos e o livro selado desde Adão), a fuga ao Egito e os prodígios do menino. Sobrevive em armênio e foi a fonte mais rica da tradição infantil cristã oriental
O julgamento de Jesus entre dois soldados
Aconteceu, no décimo quinto dia, que Jesus pensou em mostrar-se um pouco aos homens. Enquanto seguia pela estrada, deu-se que encontrou dois soldados que, caminhando, haviam entrado em discussão e queriam tirar sangue um do outro. Quando Jesus os avistou de longe, dirigiu-se a eles e lhes disse: "Soldados, por que estais tão cheios de cólera e dispostos a matar um ao outro?" Eles tinham o coração tão cheio de raiva que não lhe responderam. Quando chegaram a certo lugar, diante de um poço, sentaram-se junto à água e ameaçavam-se grosseiramente um ao outro, com injúrias. Jesus, que se sentara entre os dois, prestava atenção às palavras deles. Ora, um dos dois, que era o mais jovem, tendo refletido, disse consigo: "Ele é o mais velho; eu sou o menor e o mais jovem. Convém que eu me submeta. Ai de mim! De resto, por que enfurecê-lo contrariando-o? Quero fazer-lhe a minha submissão, conforme o desejo dele."
Então o soldado, tendo olhado ao redor, viu Jesus tranquilamente sentado e disse a Jesus: "Menino, de onde vens? Para onde vais? E qual é o teu nome?" Jesus disse: "Se eu te disser, ainda assim não saberás me compreender." O soldado disse: "Teu pai e tua mãe ainda estão vivos?" Jesus disse: "Sim, meu Pai está vivo, e ele é imortal." O soldado disse: "Como assim, imortal?" Jesus disse: "Ele é imortal desde o princípio; ele vive, e a morte não tem domínio sobre ele." O soldado disse: "Quem é esse que permanecerá sempre vivo e sobre quem a morte não tem domínio, já que dizes que teu pai tem garantida a imortalidade?" Jesus disse: "Não poderias conhecê-lo nem ter ideia dele." O soldado disse: "Quem pode vê-lo?" Jesus disse: "Ninguém." O soldado disse: "Onde está teu pai?" Jesus disse: "Ele está no céu, acima da terra." O soldado disse: "E tu, como podes ir até ele?" Jesus disse: "Eu já estive lá e, agora ainda, estou com ele." O soldado disse: "Não consigo compreender o que dizes." Jesus disse: "É algo inexplicável e inexprimível." O soldado disse: "Quem, então, pode compreendê-lo?" Jesus disse: "Se mo pedires, eu te explicarei." O soldado disse: "Eu te peço, dize-mo."
Jesus disse: "Eu sou sem pai sobre a terra e sem mãe no céu." O soldado disse: "Como nasceste e como foste alimentado?" Jesus disse: "Minha primeira geração procede do Pai antes dos séculos, e a segunda deu-se sobre esta terra." O soldado disse: "Como? Viu-se alguma vez aquele que nasceu de seu pai renascer de sua mãe?" Jesus disse: "Não o entendes como se deve." O soldado disse: "Quantos pais tens e quantas mães?" Jesus disse: "Não to disse? Tenho um Pai único e, com ele, nenhuma mãe; tenho uma mãe única e, com ela, nenhum pai." O soldado disse: "Dizes, então: por um primeiro nascimento, nasci de meu Pai, sem ter tido mãe, e, pelo segundo, nasci de minha mãe, sem ter tido pai." Jesus disse: "É bem isso." O soldado disse: "Eis prodígios! Dize-me: de quem és filho?" Jesus disse: "Eu sou o filho único do Pai, o filho de minha mãe, e o herdeiro de todas as coisas." O soldado disse: "Teu pai não viu tua mãe? Como, então, tua mãe te concebeu no seu seio e te deu à luz?" Jesus disse: "Pelo efeito de uma simples palavra, e sem sequer a ideia de uma aproximação da parte dela." O soldado disse: "Como podes satisfazer aos desejos de teu pai e de tua mãe?" Jesus disse: "É coisa fácil." O soldado disse: "Como te diriges a teu pai e como habitas junto de tua mãe?" Jesus disse: "Eu estou junto de meu Pai no céu, habito aqui embaixo junto de minha mãe, e estou com ele para a eternidade."
O soldado disse: "É bem espantoso o que dizes." Jesus disse: "E por que me fazes a pergunta sobre a qual me interrogas e que não saberias compreender?" O soldado disse: "Se eu te interroguei, menino, foi com o propósito de engajar-te no nosso serviço. Depois reconheci que és o rebento de uma ilustre família real. Que Deus te glorifique em todo lugar e que te faça obter a herança de teu pai."
Jesus disse: "Sê abençoado por Deus. Mas ensina-me por que razão disputáveis um contra o outro." O soldado disse: "Jovem, vou contar-te todo o caso, e tu pronunciarás hoje entre nós uma sentença justa." Jesus disse: "Sim. Conta-me isso." O soldado disse: "Somos do país dos magos e de uma casa real. Seguimos os reis que vieram a Belém com numerosas tropas e presentes em honra do rei recém-nascido dos israelitas. Quando aqueles voltaram ao seu país, nós viemos à cidade de Jerusalém e, por amor de Deus, tornamo-nos companheiros e irmãos um do outro. Fizemos um pacto de aliança, comprometendo-nos por juramento a não nos separarmos até a morte e a partilhar equitativamente, de modo amigável, todos os lucros que Deus nos enviasse.
Ora, como nos encontrávamos alistados na guarda do palácio de um grande chefe do reino, meu poderoso príncipe enviou-me com uma mensagem a um país distante. Permaneci ali longos dias. Receberam-me com benevolência e honra, como a etiqueta das cortes reais prescreve que se faça e que se testemunhem aos portadores de mensagens as deferências que lhes são devidas. Pela graça de Deus, voltei satisfeito. De tudo o que ganhei, nada ocultei do outro e estou pronto a partilhar. Meu camarada, por sua vez, partiu seguindo uma tropa de cavaleiros e voltou para casa depois de ter feito rico butim. Eu lhe peço para partilhar comigo o que ele trouxe de sua expedição. Ele não quer partilhar e me reclama asperamente o que lhe é devido. E agora, que me ordenas fazer?"
Jesus disse: "Se quiserdes me ouvir e agir com retidão, não mentireis um ao outro e não esquecereis os vossos compromissos, mas o que prometestes cumprir, vós o fareis. Partilhai o vosso haver equitativamente, segundo a regra e segundo o que jurastes sobre a lei de Deus. Não digais mentira diante da face de Deus, e não vos lesai um ao outro injustamente, se quiserdes viver em mútua amizade."
O outro companheiro, que era o mais velho, disse: "Menino, o verdadeiro julgamento e o direito não são o que tu os fazes. Eu estive no campo da morte; passei por muitos perigos e sobressaltos, e foi a grande custo que pude voltar ao meu lar. Ele, cercado de aparato principesco, foi aos palácios dos reis e voltou para casa com numerosos presentes. É justo que ele me dê uma parte e que eu não lhe dê nada."
Jesus disse: "Não sabeis o que dizeis. Se, na ida ou na volta, ele tivesse sofrido por parte dos inimigos toda sorte de vexames, que parte lhe terias dado?" Ele acrescentou: "Se quereis partilhar amigavelmente, revelai claramente o vosso pensamento." Tendo falado assim, Jesus calou-se.
Então o soldado que era o mais jovem, tendo se levantado, prostrou-se aos pés de seu camarada e lhe disse: "Perdoa-me, irmão, pois te contrariei gravemente. Agora, portanto, faze como entenderes. Eu partilharei; mas não posso mais viver em comum contigo, porque adquiriste importância. Tornaste-te assessor dos reis. Eu sou pobre e sem recursos. Tomarei o que me deres espontaneamente." Jesus, tendo-o olhado, foi tomado de piedade, sobretudo por causa da humildade do jovem companheiro. O mais velho era violento, pois era filho de pobre; e o mais jovem era humilde, pois era filho de grande casa.
Jesus disse ao mais jovem: "Segundo o que me disseste primeiro, foste a Belém seguindo os magos. Viste com teus próprios olhos esse rei recém-nascido que viera ao mundo?" O mais jovem soldado disse: "Sim, eu o vi com meus olhos e o adorei." Jesus disse: "E que pensaste dele? Que fé tiveste nele?" O soldado disse: "Ele é o Verbo encarnado, enviado por Deus. E sob a condução de uma estrela, fomos vê-lo, nascido da Virgem e deitado na caverna." Jesus disse: "Ouvi dizer dele que ainda vive." O soldado disse: "Eu o ignoro; mas ouvi dizer que o mataram, quando Herodes foi enganado pelos magos. Outros disseram que Herodes, por causa dele, mandou matar as crianças de Belém. Outros ainda disseram que seu pai e sua mãe, tendo-o levado, fugiram para o Egito." Jesus disse: "Disseste a verdade; mas ouvi dizer que ele está vivo. Agora certos dizem que ele não era aquele que se cria, mas um impostor e um sedutor." O soldado disse: "Não digas dele essas coisas difamatórias que não conheces; pois aqueles que o viram dizem que ele é o rei de Israel." Jesus disse: "Por que, então, o povo de Israel não creu nele?"
Os soldados disseram: "Nós o ignoramos." Jesus disse: "Quais são os vossos nomes?" Os soldados disseram: "Meu nome é Khoíratar e o dele Crohartar." Jesus disse: "A que deus servis?" Os soldados disseram: "Quando viemos a este país, estávamos seduzidos pelos falsos deuses de nossa terra, e praticávamos o culto do sol." Jesus disse: "Que quereis fazer, dizei-me?" Eles lhe disseram: "O que o teu bom prazer te sugerir, faze-o; pois hoje apareceste como um juiz entre nós dois. De fato, quando te vimos, a nossa grande indignação fez silêncio e o amor de Deus desceu sobre nós. E, à medida que vieste a nós, os nossos corações se encheram de viva alegria."
E Jesus fez entre eles a partilha equitativa. Eles se conformaram à vontade de Jesus. E Jesus os abençoou e eles prosseguiram em paz o seu caminho.