Capítulos

A Cidade de Deus - Livro XX

A Cidade de Deus, de Agostinho

A Cidade de Deus é obra de Agostinho de Hipona (354-430), escrita entre cerca de 413 e 426 em 22 livros. O saque de Roma pelos visigodos de Alarico, em 410, foi o que a desencadeou: pagãos acusavam o cristianismo de ter causado a queda da cidade ao afastar Roma dos deuses que a haviam protegido por séculos. Agostinho responde contrastando a cidade terrena e a cidade de Deus, duas comunidades definidas por amores opostos, o amor de si e o amor de Deus. Os livros I a X refutam o paganismo; os livros XI a XXII expõem a origem, o curso e o fim das duas cidades. O Livro XX pertence ao último bloco, que trata do destino final de ambas.

O Livro XX na obra

O Livro XX abre a parte sobre o fim das duas cidades e trata do juízo final e da ressurreição dos mortos. Agostinho declara seu método logo no começo: provar o juízo primeiro pelo Novo Testamento e depois pelo Antigo, reunindo o testemunho do Apocalipse, de Pedro, de Paulo, de Isaías, de Daniel, dos Salmos e de Malaquias. Ele distingue os juízos que Deus exerce desde a expulsão do paraíso e a queda dos anjos do juízo último, quando Cristo vier do céu julgar os vivos e os mortos.

O milênio amilenista e as duas ressurreições

O centro do livro é a leitura de Apocalipse 20, e é aqui que Agostinho fixa a interpretação que ficou conhecida como amilenismo. Ele rejeita o milenarismo carnal, que esperava mil anos literais de banquetes terrenos após a ressurreição dos corpos, e que ele mesmo confessa ter sustentado antes. Em vez disso, lê os mil anos como o tempo presente, a era da Igreja entre a primeira e a segunda vinda de Cristo. A primeira ressurreição é espiritual, a passagem da morte do pecado para a vida da graça, que ocorre agora no batismo e na fé; a segunda é a corporal, no fim do mundo. O diabo está preso nestes mil anos, isto é, impedido de seduzir as nações de que a Igreja é reunida, e será solto por breve tempo antes do fim. Sobre o número mil, Agostinho admite duas leituras possíveis, sem decidir entre elas.

“É deste reino militante, no qual ainda se mantém o conflito com o inimigo, que o Apocalipse fala. A Igreja já agora é o reino de Cristo e o reino dos céus. Por isso, mesmo agora Seus santos reinam com Ele.”

Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus - Livro XX 9:8

Conteúdo do Livro

Recepção e influência

A leitura agostiniana de Apocalipse 20 tornou-se a posição majoritária da Igreja ocidental por mais de um milênio e é a raiz histórica do amilenismo defendido depois por católicos e por boa parte da tradição reformada. O próprio Agostinho, no final do livro, anuncia que faltam dois livros para concluir a obra, um sobre o castigo dos ímpios e outro sobre a felicidade dos justos, que serão os livros XXI e XXII (ver

  • o anúncio dos dois livros que ainda restavam por escrever(A Cidade de Deus - Livro XX 30:23)
  • ). O escatologismo descrito aqui, com Elias, a conversão dos judeus, o Anticristo, a ressurreição e a renovação do mundo, ele apresenta na ordem provável, mas com a ressalva honesta de que o entendimento humano não pode determinar com certeza como ou em que ordem essas coisas hão de suceder.

    Texto e Tradução

    Aqui em português ao lado do inglês da tradução clássica de Marcus Dods (1871, domínio público); citação por livro, capítulo e seção.