A Cidade de Deus - Livro XX 2

Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos

Que no tecido mesclado dos assuntos humanos o juízo de Deus está presente, ainda que não possa ser discernido

No tempo presente aprendemos a suportar com equanimidade os males a que até os homens bons estão sujeitos, e a ter em pouca conta os bens de que até os ímpios desfrutam. E, por conseguinte, mesmo naquelas condições de vida em que a justiça de Deus não se manifesta, o seu ensino é salutar.
Pois não sabemos por qual juízo de Deus este homem bom é pobre e aquele homem mau é rico; por que aquele que, em nossa opinião, deveria sofrer agudamente pela sua vida desregrada se diverte, enquanto a tristeza persegue aquele cuja vida louvável nos leva a supor que deveria ser feliz; por que o homem inocente é despedido do tribunal não apenas sem ser vingado, mas até condenado, sendo ou lesado pela iniquidade do juiz, ou esmagado por falso testemunho, ao passo que o seu adversário culpado, ao contrário, não é absolvido com impunidade, mas tem até as suas pretensões acolhidas; por que o ímpio goza de boa saúde, enquanto o piedoso definha na doença; por que os facínoras são da mais robusta constituição, ao passo que aqueles que não poderiam ferir ninguém nem mesmo com uma palavra são desde a infância afligidos por enfermidades complicadas; por que aquele que é útil à sociedade é ceifado por morte prematura, enquanto aqueles que, ao que parece, nunca deveriam sequer ter nascido têm vidas de duração extraordinária; por que aquele que está cheio de crimes é coroado de honras, ao passo que o homem irrepreensível é sepultado nas trevas do esquecimento.
Mas quem poderia reunir ou enumerar todos os contrastes deste gênero? Ora, se este estado anômalo das coisas fosse uniforme nesta vida, na qual, como diz o sagrado Salmista, "O homem é semelhante à vaidade; os seus dias são como a sombra que passa", tão uniforme que apenas os homens maus alcançassem a prosperidade transitória da terra, enquanto somente os bons sofressem os seus males, isto poderia ser atribuído ao juízo justo e até benigno de Deus.
Poderíamos supor que aqueles que não estavam destinados a obter aqueles bens eternos que constituem a bem-aventurança humana ou eram iludidos por bens transitórios como justa recompensa de sua maldade, ou eram, pela misericórdia de Deus, consolados por eles; e que aqueles que não estavam destinados a sofrer tormentos eternos eram afligidos com castigo temporal por seus pecados, ou eram estimulados a maior progresso na virtude.
Mas agora, tal como estão as coisas, visto que não vemos homens bons envolvidos nos males da vida, e homens maus desfrutando dos seus bens, o que parece injusto, mas também que o mal frequentemente alcança os homens maus, e o bem surpreende os bons, por isso mesmo são os juízos de Deus insondáveis, e os seus caminhos inescrutáveis.
Portanto, ainda que não saibamos por qual juízo estas coisas são feitas ou permitidas por Deus, em quem está a suprema virtude, a suprema sabedoria, a suprema justiça, nenhuma fraqueza, nenhuma precipitação, nenhuma injustiça, contudo é salutar para nós aprendermos a ter em pouca conta tais coisas, sejam elas boas ou más, que cabem indiferentemente a homens bons e maus, e a cobiçar aqueles bens que pertencem somente aos homens bons, e a fugir daqueles males que pertencem somente aos homens maus.
Mas quando chegarmos àquele juízo cuja data é chamada peculiarmente o dia do juízo, e por vezes o dia do Senhor, então reconheceremos a justiça de todos os juízos de Deus, não dos que então forem pronunciados, mas de todos os que produzem efeito desde o princípio, ou que possam produzi-lo antes daquele tempo. E naquele dia reconheceremos também com que justiça tantos, ou quase todos, os juízos justos de Deus na vida presente desafiam o escrutínio do sentido ou da perspicácia humana, embora, nesta matéria, não esteja oculto às mentes piedosas que o que está oculto é justo.