A Cidade de Deus - Livro XX 25
Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos
A profecia de Malaquias, na qual ele fala do juízo final e de uma purificação que alguns hão de sofrer mediante castigos purificadores
O profeta Malaquias, ou Malaquias, que também é chamado Anjo e que, por alguns (pois Jerônimo nos informa que essa é a opinião dos hebreus), é identificado com Esdras, o sacerdote, alguns de cujos outros escritos foram recebidos no cânon, prediz o juízo final, dizendo: "Eis que Ele vem, diz o Senhor Todo-Poderoso; e quem poderá suportar o dia da sua vinda? ... pois eu sou o Senhor vosso Deus, e não me mudo." Destas palavras se evidencia mais claramente que alguns, no juízo final, hão de sofrer certa espécie de castigos purgatórios; pois que outra coisa se pode entender pelas palavras: "Quem suportará o dia da sua vinda, ou quem poderá olhar para Ele? pois Ele entra como o fogo do fundidor e como a erva dos lavandeiros: e Ele se assentará fundindo e purificando como sobre ouro e prata: e purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e prata?" Semelhantemente diz Isaías: "O Senhor lavará a imundície dos filhos e das filhas de Sião e limpará o sangue do meio dela, pelo espírito de juízo e pelo espírito de ardor." A menos que talvez devêssemos dizer que eles são limpos da imundície e de certo modo purificados quando os ímpios são deles separados por sentença penal, de modo que a eliminação e a condenação de uma parte é a purgação dos outros, porque estes hão de viver dali em diante livres da contaminação de tais homens.
Mas quando ele diz: "E purificará os filhos de Levi e os refinará como ouro e prata, e oferecerão ao Senhor sacrifícios em justiça; e os sacrifícios de Judá e de Jerusalém serão agradáveis ao Senhor", declara que aqueles que forem purificados então agradarão ao Senhor com sacrifícios de justiça, e por consequência eles próprios serão purificados de sua própria injustiça, que os tornava desagradáveis a Deus. Ora, eles próprios, quando tiverem sido purificados, serão sacrifícios de completa e perfeita justiça; pois que oferta mais aceitável podem tais pessoas fazer a Deus do que a si mesmas?
Mas esta questão dos castigos purgatórios devemos adiar para outra ocasião, a fim de lhe dar tratamento mais adequado. Pelos filhos de Levi, de Judá e de Jerusalém devemos entender a própria Igreja, reunida não somente dentre os hebreus, mas também dentre as outras nações; e não tal Igreja como ela é agora, quando, "se dissermos que não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós", mas como ela há de ser então, purgada pelo juízo final como uma eira por um vento que joeira, e aqueles dos seus membros que disso necessitam sendo purificados pelo fogo, de modo que não reste absolutamente nenhum que ofereça sacrifício pelos seus pecados.
Pois todos os que fazem tais ofertas estão certamente em seus pecados, para cuja remissão fazem as ofertas, a fim de que, tendo feito a Deus uma oferta aceitável, possam então ser absolvidos.