A Cidade de Deus - Livro XX 3
Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos
O que Salomão, no livro do Eclesiastes, diz acerca das coisas que sucedem igualmente aos bons e aos maus
Salomão, o mais sábio rei de Israel, que reinou em Jerusalém, assim começa o livro chamado Eclesiastes, que os judeus contam entre as suas Escrituras canônicas: "Vaidade de vaidades, disse o Pregador, vaidade de vaidades; tudo é vaidade.
Que proveito tem o homem de todo o seu trabalho, com que se afadiga debaixo do sol?" E depois de prosseguir enumerando, partindo disso como tema, as calamidades e ilusões desta vida, e a natureza mutável do tempo presente, no qual não há nada substancial, nada duradouro, ele lamenta, entre as outras vaidades que estão debaixo do sol, também esta: que, embora a sabedoria exceda a loucura como a luz excede as trevas, e embora os olhos do sábio estejam na sua cabeça, ao passo que o tolo caminha nas trevas, contudo um mesmo acontecimento sucede a todos eles, isto é, nesta vida debaixo do sol, aludindo indubitavelmente àqueles males que vemos suceder igualmente aos bons e aos maus.
Diz ele, além disso, que os bons sofrem os males da vida como se fossem malfeitores, e os maus desfrutam dos bens da vida como se fossem bons. "Ainda há outra vaidade que se faz sobre a terra: que há justos a quem sucede segundo a obra dos ímpios, e há ímpios a quem sucede segundo a obra dos justos. Eu disse que também isso é vaidade." Este sapientíssimo homem dedicou todo este livro a uma plena exposição dessa vaidade, evidentemente sem outro objetivo senão que aspirássemos àquela vida em que não há vaidade debaixo do sol, mas verdade sob Aquele que fez o sol.
Nesta vaidade, então, não foi pelo justo e reto juízo de Deus que o homem, tornado semelhante à vaidade, foi destinado a passar? Mas nestes dias de vaidade faz uma diferença importante se ele resiste ou cede à verdade, e se está destituído da verdadeira piedade ou é participante dela: importante não no que respeita à aquisição das bênçãos ou à evasão das calamidades desta vida transitória e vã, mas em conexão com o juízo futuro, que entregará aos bons homens bens, e aos maus homens males, em posse permanente e inalienável.
Por fim, este sábio conclui este seu livro dizendo: "Teme a Deus, e guarda os seus mandamentos; porque isto é o dever de todo o homem. Pois Deus há de trazer a juízo toda obra, com toda pessoa desprezada, seja boa, seja má." Que enunciado mais verdadeiro, mais conciso, mais salutar poderia ser feito? "Teme a Deus", diz ele, "e guarda os seus mandamentos; porque isto é todo o homem." Pois todo aquele que tem existência real é isto, é um guardador dos mandamentos de Deus; e aquele que não é isto, nada é. Pois, enquanto permanece na semelhança da vaidade, não é renovado na imagem da verdade.
"Pois Deus há de trazer a juízo toda obra", isto é, tudo quanto o homem faz nesta vida, "seja ela boa, seja ela má, com toda pessoa desprezada", isto é, com todo homem que aqui parece desprezível, e por isso não é considerado; pois Deus vê até a ele, e não o despreza nem o passa por alto no seu juízo.