A Cidade de Deus - Livro XX 19
Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos
O que o apóstolo Paulo escreveu aos tessalonicenses sobre a manifestação do Anticristo que há de preceder o dia do Senhor
Vejo que devo omitir muitas das declarações dos evangelhos e das epístolas acerca deste último juízo, para que este volume não se torne excessivamente longo; mas de modo algum posso omitir o que diz o apóstolo Paulo, ao escrever aos tessalonicenses: "Rogamos-vos, irmãos, pela vinda de nosso Senhor Jesus Cristo", e o que se segue.
Ninguém pode duvidar de que ele escreveu isto a respeito do Anticristo e do dia do juízo, que aqui chama de dia do Senhor, nem de que declarou que esse dia não viria sem que primeiro viesse aquele que é chamado o apóstata, apóstata, isto é, do Senhor Deus. E se isto pode justamente ser dito de todos os ímpios, quanto mais dele? Mas é incerto em que templo ele há de assentar-se, se naquela ruína do templo que foi edificado por Salomão, ou na Igreja; pois o apóstolo não chamaria de templo de Deus o templo de algum ídolo ou demônio.
E por esta razão alguns pensam que nesta passagem o Anticristo significa não apenas o príncipe em si mesmo, mas todo o seu corpo, isto é, a multidão de homens que aderem a ele, juntamente com ele, seu príncipe; e pensam também que verteríamos o grego mais exatamente se lêssemos não "no templo de Deus", mas "para" ou "como templo de Deus", como se ele próprio fosse o templo de Deus, a Igreja. Quanto às palavras "E agora sabeis o que o detém", isto é, sabeis que impedimento ou causa de demora existe, "para que ele seja revelado a seu próprio tempo", elas mostram que ele não quis fazer uma declaração explícita, porque disse que eles sabiam.
E assim nós, que não temos o conhecimento deles, desejamos e não somos capazes, nem mesmo com esforço, de compreender aquilo a que o apóstolo se referia, sobretudo porque seu sentido se torna ainda mais obscuro pelo que acrescenta. Pois o que quer ele dizer com "Porque já opera o mistério da iniquidade: somente aquele que agora o retém o retenha, até que seja tirado do meio: e então será revelado o iníquo"? Confesso francamente que não sei o que ele quer dizer. Mencionarei, contudo, tais conjecturas como as que ouvi ou li.
Alguns pensam que o apóstolo Paulo se referia ao império romano, e que não quis usar linguagem mais explícita, para não incorrer na acusação caluniosa de desejar o mal ao império, que se esperava ser eterno; de modo que, ao dizer "Porque já opera o mistério da iniquidade", aludia a Nero, cujos feitos já pareciam ser como os feitos do Anticristo. E daí alguns supõem que ele há de ressurgir e ser o Anticristo.
Outros, por sua vez, supõem que ele nem sequer está morto, mas que foi ocultado para que se supusesse haver sido morto, e que agora vive escondido no vigor da mesma idade que havia alcançado quando se acreditou que perecera, e viverá até ser revelado a seu próprio tempo e restituído ao seu reino. Mas admira-me que os homens possam ser tão audazes em suas conjecturas.
Contudo, não é absurdo crer que estas palavras do apóstolo, "somente aquele que agora o retém o retenha, até que seja tirado do meio", se referem ao império romano, como se fosse dito: "somente aquele que agora reina reine, até que seja tirado do meio". "E então será revelado o iníquo": ninguém duvida de que isto significa o Anticristo.
Mas outros pensam que as palavras "Sabeis o que o detém" e "O mistério da iniquidade opera" se referem apenas aos maus e aos hipócritas que estão na Igreja, até que alcancem um número tão grande que forneça ao Anticristo um grande povo, e que este é o mistério da iniquidade, porque parece oculto; e também que o apóstolo está exortando os fiéis a reterem tenazmente a fé que professam quando diz "somente aquele que agora o retém o retenha, até que seja tirado do meio", isto é, até que o mistério da iniquidade, que agora está oculto, se aparte da Igreja.
Pois supõem que é a este mesmo mistério que João alude quando diz em sua epístola: "Filhinhos, é a última hora: e, como ouvistes que há de vir o Anticristo, também agora muitos anticristos têm surgido; pelo que conhecemos que é a última hora."
"Saíram de nós, mas não eram de nós; porque, se fossem de nós, sem dúvida teriam permanecido conosco." Assim como, portanto, saíram da Igreja muitos hereges, a quem João chama "muitos anticristos", naquele tempo anterior ao fim, e que João chama "a última hora", assim também no fim sairão aqueles que não pertencem a Cristo, mas àquele último Anticristo, e então ele será revelado.
Variadas são, pois, as explicações conjecturais das obscuras palavras do apóstolo. Aquilo que não há dúvida de que ele disse é isto: que Cristo não virá julgar os vivos e os mortos sem que primeiro venha o Anticristo, seu adversário, a seduzir aqueles que estão mortos na alma; ainda que a sedução deles seja resultado do secreto juízo de Deus já proferido.
Pois, como está escrito, "a sua vinda será segundo a operação de Satanás, com todo o poder, e sinais e prodígios de mentira, e com todo o engano da injustiça para os que perecem". Pois então será solto Satanás, e por meio daquele Anticristo operará com todo o poder, de maneira mentirosa, embora maravilhosa.
Costuma-se questionar se estas obras são chamadas "sinais e prodígios de mentira" porque ele há de enganar os sentidos dos homens com falsas aparências, ou porque as coisas que ele faz, embora sejam verdadeiros prodígios, serão uma mentira para aqueles que crerem que tais coisas só poderiam ser feitas por Deus, ignorando o poder do diabo, e sobretudo um poder tão sem exemplo como aquele que ele então pela primeira vez exercerá.
Pois quando ele caiu do céu como fogo e, de um só golpe, varreu do santo Jó a sua numerosa criadagem e os seus vastos rebanhos, e então, como um turbilhão, precipitou-se sobre a casa, abateu-a e matou seus filhos, estas não foram aparências enganosas, e contudo foram obras de Satanás, a quem Deus havia dado este poder. Por que são chamadas sinais e prodígios de mentira, saberemos então mais provavelmente quando o próprio tempo chegar.
Mas qualquer que seja a razão do nome, serão tais sinais e prodígios que seduzirão aqueles que merecerem ser seduzidos, "porque não receberam o amor da verdade para serem salvos". Tampouco hesitou o apóstolo em prosseguir e dizer: "E por isso Deus lhes enviará a operação do erro, para que creiam na mentira." Pois Deus enviará, porque Deus permitirá que o diabo faça estas coisas, sendo a permissão segundo o seu próprio justo juízo, ainda que a realização delas se dê em cumprimento do propósito injusto e maligno do diabo, "para que sejam julgados todos os que não creram na verdade, antes tiveram prazer na injustiça". Portanto, sendo julgados, serão seduzidos, e, sendo seduzidos, serão julgados.
Mas, sendo julgados, serão seduzidos por aqueles juízos de Deus, secretamente justos e justamente secretos, com os quais ele nunca cessou de julgar desde o primeiro pecado das criaturas racionais; e, sendo seduzidos, serão julgados naquele último e manifesto juízo administrado por Jesus Cristo, que foi ele mesmo julgadíssimo injustamente e há de julgar justíssimamente.