A Cidade de Deus - Livro XX 20
Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos
O que o mesmo apóstolo ensinou na primeira Epístola aos Tessalonicenses acerca da ressurreição dos mortos
Mas o apóstolo nada disse aqui acerca da ressurreição dos mortos; na sua primeira Epístola aos Tessalonicenses, porém, ele diz: "Não quero, irmãos, que sejais ignorantes acerca dos que dormem", e assim por diante. Estas palavras do apóstolo proclamam de modo claríssimo a futura ressurreição dos mortos, quando o Senhor Cristo vier para julgar os vivos e os mortos.
Mas costuma-se perguntar se aqueles que nosso Senhor encontrar vivos sobre a terra, representados nesta passagem pelo apóstolo e por aqueles que com ele estavam vivos, jamais hão de morrer, ou se hão de passar com incompreensível rapidez através da morte para a imortalidade, no próprio instante em que forem arrebatados juntamente com os que ressuscitam para irem ao encontro do Senhor nos ares. Pois não podemos dizer que seja impossível que ao mesmo tempo morram e tornem a viver, enquanto são levados ao alto pelos ares.
Pois as palavras "e assim estaremos sempre com o Senhor" não devem ser entendidas como se ele quisesse dizer que sempre permaneceremos nos ares com o Senhor; porque Ele mesmo não há de permanecer ali, mas somente passará por eles ao vir. Pois iremos ao Seu encontro quando Ele vier, não ao lugar onde Ele permanece; mas "assim estaremos com o Senhor", isto é, estaremos com Ele dotados de corpos imortais, onde quer que com Ele estejamos.
Parecemos compelidos a tomar as palavras neste sentido e a supor que aqueles que o Senhor encontrar vivos sobre a terra hão de, naquele breve espaço, ao mesmo tempo sofrer a morte e receber a imortalidade; pois este mesmo apóstolo diz: "Em Cristo todos serão vivificados"; ao passo que, falando da mesma ressurreição do corpo, ele diz em outro lugar: "O que semeias não é vivificado, se primeiro não morrer." Como, então, hão de ser vivificados para a imortalidade nele aqueles que Cristo encontrar vivos sobre a terra, se não morrem, visto que por esta mesma razão se diz: "O que semeias não é vivificado, se primeiro não morrer"? Ou, se não podemos propriamente falar de corpos humanos como semeados, a não ser na medida em que, ao morrer, de algum modo retornam à terra, conforme também corre a sentença pronunciada por Deus contra o pecador pai do gênero humano: "Terra és, e em terra te tornarás", devemos reconhecer que aqueles que Cristo, em sua vinda, encontrar ainda no corpo não estão incluídos nestas palavras do apóstolo nem nas do Gênesis; pois, sendo arrebatados nas nuvens, certamente não são semeados, não indo nem retornando à terra, quer não experimentem morte alguma, quer morram por um momento nos ares.
Mas, por outro lado, vem-nos ao encontro o dito do mesmo apóstolo, quando falava aos Coríntios acerca da ressurreição do corpo: "Todos ressuscitaremos", ou, como leem outros manuscritos, "Todos dormiremos". Ora, visto que não pode haver ressurreição se a morte não a precede, e visto que nesta passagem por sono não podemos entender outra coisa senão a morte, como hão de todos dormir ou ressuscitar, se tantas pessoas que Cristo encontrar no corpo não hão de dormir nem ressuscitar?
Se, então, cremos que os santos que forem encontrados vivos na vinda de Cristo, e forem arrebatados ao Seu encontro, hão de, nessa mesma ascensão, passar de corpos mortais a imortais, não encontraremos dificuldade alguma nas palavras do apóstolo, quer quando ele diz: "O que semeias não é vivificado, se primeiro não morrer", quer quando diz: "Todos ressuscitaremos" ou "todos dormiremos"; pois nem mesmo os santos serão vivificados para a imortalidade se primeiro não morrerem, por mais breve que seja; e, por conseguinte, não estarão isentos da ressurreição, a qual é precedida de sono, por mais breve que ele seja.
E por que nos haveria de parecer incrível que aquela multidão de corpos fosse, por assim dizer, semeada nos ares, e nos ares logo revivesse imortal e incorruptível, quando cremos, pelo testemunho do mesmo apóstolo, que a ressurreição se dará num abrir e fechar de olhos, e que o pó dos corpos há muito mortos retornará, com incompreensível facilidade e rapidez, àqueles membros que agora hão de viver sem fim?
Tampouco supomos que, no caso destes santos, a sentença "Terra és, e em terra te tornarás" fique sem efeito, ainda que os seus corpos não caiam por terra ao morrer, mas ao mesmo tempo morram e ressuscitem enquanto são arrebatados aos ares. Pois "tornarás à terra" significa: tornarás, na morte, àquilo que eras antes que a vida começasse. Serás, quando exânime, aquilo que eras antes de seres animado.
Pois foi sobre uma face de terra que Deus assoprou o sopro da vida, quando o homem se tornou alma vivente; como se fosse dito: és terra com uma alma, o que não eras; serás terra sem alma, como eras. E isto é o que são todos os corpos dos mortos antes de apodrecerem; e o que serão os corpos daqueles santos, se morrerem, não importa onde morram, tão logo entreguem aquela vida que imediatamente hão de receber de volta.
Desse modo, pois, eles retornam ou vão à terra, na medida em que, de homens vivos que eram, hão de tornar-se terra, assim como se diz que o que se torna cinza vai à cinza; o que se corrompe, vai à corrupção; e assim de outras seiscentas coisas. Mas a maneira pela qual isto há de suceder só podemos agora conjeturar debilmente, e só a compreenderemos quando acontecer. Pois que haverá uma ressurreição corporal dos mortos, quando Cristo vier julgar os vivos e os mortos, devemos crê-lo, se quisermos ser cristãos. Mas, se não somos capazes de compreender perfeitamente a maneira pela qual há de suceder, nem por isso a nossa fé é vã.
Agora, porém, devemos, como antes prometemos, mostrar, na medida em que parecer necessário, o que os antigos livros proféticos predisseram acerca deste juízo final de Deus; e creio que não será preciso despender muito tempo em discutir e explicar estas predições, se o leitor tiver tido o cuidado de se valer do auxílio que já fornecemos.