A Cidade de Deus - Livro XX 22
Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos
O que se entende pela saída dos bons para ver o castigo dos ímpios
Mas de que modo sairão os bons para ver o castigo dos ímpios? Acaso deixarão suas moradas bem-aventuradas por um movimento corporal e se dirigirão aos lugares de castigo, de sorte a presenciar os tormentos dos ímpios em sua presença corpórea? Certamente não; mas sairão pelo conhecimento. Pois esta expressão, sair, significa que aqueles que hão de ser castigados estarão fora.
E assim também o Senhor chama esses lugares de "as trevas exteriores", às quais se opõe aquela entrada acerca da qual se diz ao bom servo: "Entra no gozo do teu Senhor", para que não se suponha que os ímpios possam entrar ali e ser conhecidos, mas antes que os bons, pelo seu conhecimento, saiam até eles, porque os bons hão de conhecer aquilo que está fora. Pois os que estiverem em tormento não saberão o que se passa dentro, no gozo do Senhor; mas os que entrarem naquele gozo saberão o que se passa fora, nas trevas exteriores.
Portanto se diz: "Eles sairão", porque hão de conhecer o que é feito por aqueles que estão fora. Pois se os profetas foram capazes de conhecer coisas que ainda não haviam acontecido, por meio daquela habitação de Deus em suas mentes, ainda que ela fosse limitada, não conhecerão os santos imortais coisas que já aconteceram, quando Deus for tudo em todos?
A semente, pois, e o nome dos santos permanecerão naquela bem-aventurança: a semente, a saber, de que fala João, "E a sua semente permanece nele"; e o nome, do qual se disse pelo próprio Isaías, "Dar-lhes-ei um nome eterno". "E haverá para eles mês após mês, e sábado após sábado", como se fosse dito: lua após lua, e descanso sobre descanso, ambos os quais eles mesmos serão, quando passarem das velhas sombras do tempo para as novas luzes da eternidade.
O verme que não morre, e o fogo que não se apaga, que constituem o castigo dos ímpios, são interpretados de modos diversos por pessoas diversas. Pois alguns referem ambos ao corpo, outros referem ambos à alma; ao passo que outros ainda referem o fogo literalmente ao corpo, e o verme figuradamente à alma, o que parece a ideia mais crível. Mas o presente não é o momento de discutir essa diferença, pois nos propusemos a ocupar este livro com o juízo final, no qual os bons e os maus são separados: suas recompensas e castigos discutiremos mais cuidadosamente em outro lugar.