A Cidade de Deus - Livro XX 5

Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos

As passagens em que o Salvador declara que haverá um juízo divino no fim do mundo

O próprio Salvador, ao repreender as cidades nas quais havia realizado grandes obras, mas que não haviam crido, e ao colocá-las em comparação desfavorável com cidades estrangeiras, diz: "Mas eu vos digo que haverá menos rigor para Tiro e Sidom no dia do juízo do que para vós." E pouco depois diz: "Em verdade vos digo que haverá menos rigor para a terra de Sodoma no dia do juízo do que para ti." Aqui ele prediz com toda a clareza que de vir um dia de juízo.
E em outro lugar ele diz: "Os homens de Nínive se levantarão no juízo com esta geração, e a condenarão, porque se arrependeram com a pregação de Jonas; e eis aqui está quem é maior do que Jonas. A rainha do Sul se levantará no juízo com esta geração, e a condenará, porque veio dos confins da terra para ouvir as palavras de Salomão; e eis aqui está quem é maior do que Salomão." Duas coisas aprendemos desta passagem: que de ocorrer um juízo, e que ele de ocorrer na ressurreição dos mortos.
Pois quando ele falou dos ninivitas e da rainha do Sul, certamente falava de pessoas mortas, e contudo disse que elas se haviam de levantar no dia do juízo. Ele não disse: "Elas condenarão", como se elas próprias houvessem de ser os juízes, mas porque, em comparação com elas, os outros serão justamente condenados.
Novamente, em outra passagem, na qual falava da presente mistura e da futura separação dos bons e dos maus (a separação que se de fazer no dia do juízo), ele apresentou uma comparação tirada do trigo semeado e do joio semeado entre ele, e deu esta explicação dela aos seus discípulos: "Aquele que semeia a boa semente é o Filho do homem", e assim por diante. Aqui, de fato, ele não nomeou o juízo nem o dia do juízo, mas indicou-o muito mais claramente ao descrever as circunstâncias, e predisse que ele havia de ocorrer no fim do mundo.
De modo semelhante ele diz aos seus discípulos: "Em verdade vos digo que vós, que me seguistes, na regeneração, quando o Filho do homem se assentar no trono da sua glória, também vos assentareis sobre doze tronos, julgando as doze tribos de Israel." Aqui aprendemos que Jesus de julgar com os seus discípulos. E por isso ele disse em outro lugar aos judeus: "Se eu expulso os demônios por Belzebu, por quem os expulsam os vossos filhos?
Por isso eles serão os vossos juízes." Tampouco devemos supor que somente doze homens hão de julgar juntamente com ele, ainda que diga que se assentarão sobre doze tronos, pois pelo número doze se significa a totalidade da multidão daqueles que hão de julgar. Pois as duas partes do número sete (que comumente simboliza a totalidade), isto é, quatro e três, multiplicadas uma pela outra, dão doze. Pois quatro vezes três, ou três vezes quatro, são doze. ainda outros significados neste número doze.
Não fosse esta a correta interpretação dos doze tronos, então, visto que lemos que Matias foi ordenado apóstolo no lugar de Judas, o traidor, o apóstolo Paulo, ainda que tenha trabalhado mais do que todos eles, não teria trono de juízo algum; mas ele inequivocamente se considera incluído no número dos juízes quando diz: "Não sabeis vós que havemos de julgar os anjos?" A mesma regra se de observar ao aplicar o número doze àqueles que hão de ser julgados.
Pois ainda que se tenha dito "julgando as doze tribos de Israel", a tribo de Levi, que é a décima terceira, não de por isso ficar isenta do juízo, nem o juízo de recair somente sobre Israel e não sobre as outras nações. E pelas palavras "na regeneração" ele certamente quis que se entendesse a ressurreição dos mortos, pois a nossa carne de ser regenerada pela incorrupção, assim como a nossa alma é regenerada pela fé.
Muitas passagens omito, porque, embora pareçam referir-se ao juízo final, contudo, num exame mais atento, descobre-se que são ambíguas, ou que aludem antes a algum outro acontecimento: seja àquela vinda do Salvador que continuamente ocorre na sua Igreja, isto é, nos seus membros, na qual ele vem pouco a pouco, e parte por parte, visto que toda a Igreja é o seu corpo, seja à destruição da Jerusalém terrena.
Pois quando ele fala mesmo desta, usa muitas vezes uma linguagem que se aplica ao fim do mundo e àquele último e grande dia do juízo, de modo que estes dois acontecimentos não podem ser distinguidos a menos que todas as passagens correspondentes que tratam do assunto nos três evangelistas, Mateus, Marcos e Lucas, sejam comparadas umas com as outras (pois algumas coisas são postas mais obscuramente por um evangelista e mais claramente por outro), de modo que se torne evidente quais coisas se devem referir a cada acontecimento.
É isto o que me empenhei em fazer numa carta que escrevi a Hesíquio de abençoada memória, bispo de Salona, e intitulei "Do Fim do Mundo".
Citarei agora, do Evangelho segundo Mateus, a passagem que fala da separação dos bons dos maus pelo mais eficaz e final juízo de Cristo: "Quando o Filho do homem", diz ele, "vier na sua glória... então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o diabo e seus anjos." Então ele de modo semelhante enumera aos maus as coisas que não haviam feito, mas que dissera terem feito os que estavam à direita.
E quando eles perguntam quando o haviam visto necessitado destas coisas, ele responde que, visto que não o haviam feito ao menor dos seus irmãos, não o haviam feito a ele, e conclui o seu discurso com as palavras: "E estes irão para o tormento eterno, mas os justos para a vida eterna." Além disso, o evangelista João declara com toda a clareza que ele predissera que o juízo se daria na ressurreição dos mortos.
Pois, depois de dizer: "O Pai a ninguém julga, mas entregou todo o juízo ao Filho, para que todos honrem o Filho, como honram o Pai; quem não honra o Filho não honra o Pai que o enviou", ele imediatamente acrescenta: "Em verdade, em verdade vos digo: Quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, e não entrará em juízo, mas passou da morte para a vida." Aqui ele disse que os que creem nele não hão de entrar em juízo.
Como, então, hão de ser eles separados dos maus pelo juízo, e postos à sua direita, a menos que o termo juízo seja usado nesta passagem com o sentido de condenação? Pois neste sentido não entrarão em juízo aqueles que ouvem a sua palavra e creem naquele que o enviou.