A Cidade de Deus - Livro XX 26
Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos
Dos sacrifícios oferecidos a Deus pelos santos, que Lhe hão de ser agradáveis, como nos dias primitivos e nos anos anteriores
E foi com o propósito de mostrar que a sua cidade não seguirá então este costume que Deus disse que os filhos de Levi haveriam de oferecer sacrifícios em justiça, e portanto não em pecado, e consequentemente não pelo pecado.
E daqui vemos quão em vão os judeus prometem a si mesmos um retorno dos antigos tempos de sacrificar segundo a lei do antigo testamento, fundando-se nas palavras que se seguem: E o sacrifício de Judá e de Jerusalém será agradável ao Senhor, como nos dias primitivos e como nos anos anteriores. Pois nos tempos da lei eles ofereciam sacrifícios não em justiça, mas em pecados, oferecendo especialmente e primeiramente pelos pecados, a tal ponto que até o próprio sacerdote, que devemos supor ter sido o homem mais justo dentre eles, estava acostumado a oferecer, segundo os mandamentos de Deus, primeiro pelos seus próprios pecados e depois pelos pecados do povo.
E portanto devemos explicar como havemos de entender as palavras: como nos dias primitivos e como nos anos anteriores; pois talvez ele aluda ao tempo em que nossos primeiros pais estavam no paraíso. Então, de fato, íntegros e puros de toda mácula e mancha de pecado, eles se ofereciam a Deus como os mais puros sacrifícios.
Mas, visto que foram dali banidos por causa de sua transgressão, e a natureza humana foi condenada neles, com exceção do único Mediador e daqueles que foram batizados e ainda são crianças de colo, não há ninguém limpo de mácula, nem mesmo a criancinha cuja vida não tenha sido senão de um só dia sobre a terra. Mas, se se replicar que aqueles que oferecem na fé podem ser ditos oferecer em justiça, porque o justo vive pela fé (engana-se, contudo, se disser que não tem pecado, e por isso não o diz, porque vive pela fé), porventura dirá algum homem que este tempo da fé pode ser posto em pé de igualdade com aquela consumação, quando os que oferecem sacrifícios em justiça hão de ser purificados pelo fogo do juízo final?
E consequentemente, visto que se deve crer que, após tal purificação, os justos não reterão pecado algum, certamente aquele tempo, no que diz respeito à sua isenção de pecado, não pode ser comparado a nenhum outro período, a não ser àquele durante o qual nossos primeiros pais viveram no paraíso na mais inocente felicidade, antes de sua transgressão.
É este período, portanto, que se entende propriamente quando se diz: como nos dias primitivos e como nos anos anteriores. Pois também em Isaías, depois de prometidos os novos céus e a nova terra, entre outros elementos na bem-aventurança dos santos que ali são retratados por alegorias e figuras (de cuja explicação adequada me vejo impedido pelo desejo de evitar a prolixidade), diz-se: Segundo os dias da árvore da vida serão os dias do meu povo. E quem, tendo olhado a Escritura, não sabe onde Deus plantou a árvore da vida, de cujo fruto Ele excluiu nossos primeiros pais quando a sua própria iniquidade os expulsou do paraíso, e em torno da qual se pôs uma cerca terrível e de fogo?
Mas, se alguém sustentar que aqueles dias da árvore da vida mencionados pelo profeta Isaías são os tempos presentes da Igreja de Cristo, e que o próprio Cristo é profeticamente chamado a Árvore da Vida, porque Ele é a Sabedoria, e da sabedoria diz Salomão: É árvore da vida para todos os que a abraçam; e se mantiverem que nossos primeiros pais não passaram anos no paraíso, mas dele foram expulsos tão depressa que nenhum de seus filhos ali foi gerado, e que portanto aquele tempo não pode ser aludido nas palavras que dizem: como nos dias primitivos e como nos anos anteriores, abstenho-me de entrar nesta questão, para que, discutindo tudo, não me torne prolixo e deixe todo o assunto na incerteza.
Pois vejo outro sentido, que nos deve impedir de crer que uma restauração dos dias primitivos e dos anos anteriores dos sacrifícios legais nos pudesse ter sido prometida pelo profeta como um grande benefício. Pois os animais selecionados como vítimas sob a lei antiga eram requeridos a ser imaculados e livres de toda e qualquer mancha, e simbolizavam homens santos livres de todo pecado, do qual caráter o único exemplo se encontrou em Cristo.
Assim, portanto, como após o juízo aqueles que são dignos de tal purificação hão de ser purificados até pelo fogo, e hão de ser tornados inteiramente sem pecado, e hão de oferecer-se a Deus em justiça, e ser de fato vítimas imaculadas e livres de toda e qualquer mancha, eles serão então certamente como nos dias primitivos e como nos anos anteriores, quando se ofereciam as mais puras vítimas, sombra desta realidade futura. Pois haverá então no corpo e na alma dos santos a pureza que era simbolizada nos corpos dessas vítimas.
Então, com referência àqueles que são dignos não de purificação, mas de condenação, Ele diz: E me aproximarei de vós para o juízo, e serei testemunha veloz contra os malfeitores e contra os adúlteros; e, depois de enumerar outros crimes condenáveis, acrescenta: Porque eu sou o Senhor vosso Deus, e não me mudo. É como se Ele dissesse: Ainda que a vossa culpa vos tenha mudado para pior, e a minha graça vos tenha mudado para melhor, eu não me mudo.
E diz que Ele mesmo será testemunha, porque no seu juízo não precisa de testemunhas; e que será veloz, ou porque há de vir subitamente, e o juízo que parecia tardar será muito veloz pela sua chegada inesperada, ou porque convencerá as consciências dos homens diretamente e sem nenhum prolixo discurso.
Pois, como está escrito, nos pensamentos do ímpio se fará a sua inquirição. E o apóstolo diz: Os pensamentos, ora acusando, ora defendendo, no dia em que Deus julgar os segredos dos homens, segundo o meu evangelho, em Jesus Cristo. Assim, pois, será o Senhor testemunha veloz, quando subitamente trouxer de volta à memória aquilo que convencerá e punirá a consciência.