A Cidade de Deus - Livro XX 28

Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos

Que a lei de Moisés deve ser entendida espiritualmente, para excluir os murmúrios condenáveis de uma interpretação carnal

Nas palavras que se seguem, "Lembrai-vos da lei de Moisés, meu servo, a qual lhe ordenei em Horebe para todo o Israel", o profeta menciona oportunamente os preceitos e os estatutos, depois de declarar a importante distinção que daí em diante de fazer-se entre aqueles que observam e aqueles que desprezam a lei. Ele pretende também que aprendam a interpretar a lei espiritualmente, e que nela encontrem a Cristo, por cujo juízo se de fazer aquela separação entre os bons e os maus.
Pois não é sem razão que o próprio Senhor diz aos judeus: "Se crêsseis em Moisés, creríeis em mim, porque ele escreveu a meu respeito." Pois, recebendo a lei carnalmente, sem perceber que as suas promessas terrenas eram figuras de coisas espirituais, caíram em tais murmúrios a ponto de dizerem audaciosamente: inútil servir a Deus; e que proveito em que tenhamos guardado a sua ordenança, e em que tenhamos andado suplicantes diante da face do Senhor Todo-Poderoso?
E agora chamamos felizes aos estranhos; sim, os que praticam a iniquidade prosperam." Foram estas palavras deles que de certo modo compeliram o profeta a anunciar o último juízo, no qual os ímpios não serão felizes nem mesmo em aparência, mas se manifestarão como os mais miseráveis; e no qual os bons não serão oprimidos sequer por uma desgraça transitória, mas desfrutarão de uma felicidade imaculada e eterna.
Pois ele havia citado antes algumas expressões semelhantes daqueles que diziam: "Todo aquele que faz o mal é bom aos olhos do Senhor, e tais lhe são agradáveis." Foi, digo eu, por entenderem carnalmente a lei de Moisés que chegaram a murmurar assim contra Deus. E daí também o autor do Salmo 73 diz que os seus pés quase se desviaram, que os seus passos por pouco não escorregaram, porque teve inveja dos pecadores ao considerar a sua prosperidade, de modo que disse, entre outras coisas: Como o sabe Deus, e haverá conhecimento no Altíssimo? E outra vez: Acaso purifiquei em vão o meu coração e lavei as minhas mãos na inocência?
Ele prossegue dizendo que os seus esforços para resolver este problema tão difícil, que surge quando os bons parecem desgraçados e os ímpios felizes, foram em vão, até que entrou no santuário de Deus e compreendeu as últimas coisas. Pois no último juízo as coisas não serão assim; mas, na manifesta felicidade dos justos e na manifesta miséria dos ímpios, de aparecer um estado de coisas bem diverso.