A Cidade de Deus - Livro XX 8
Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos
Da prisão e da libertação do diabo
"Depois disto", diz João, "importa que ele seja solto por um pouco de tempo." Se a prisão e o encerramento do diabo significam que ele foi tornado incapaz de seduzir a Igreja, deverá a sua libertação ser a recuperação dessa capacidade? De modo algum. Pois a Igreja predestinada e eleita antes da fundação do mundo, a Igreja da qual se diz: "O Senhor conhece os que são seus", nunca será seduzida por ele. E contudo haverá uma Igreja neste mundo, mesmo quando o diabo for solto, assim como houve desde o princípio e haverá sempre, sendo os lugares dos que morrem preenchidos por novos crentes.
Pois um pouco adiante João diz que o diabo, sendo solto, atrairá as nações que ele seduziu no mundo inteiro para fazerem guerra contra a Igreja, e que o número destes inimigos será como a areia do mar. "E subiram sobre a largura da terra, e cercaram o acampamento dos santos e a cidade amada; e desceu fogo de Deus, do céu, e os devorou.
E o diabo, que os seduzira, foi lançado no lago de fogo e enxofre, onde estão a besta e o falso profeta; e serão atormentados de dia e de noite, para todo o sempre." Isto se refere ao juízo final, mas julguei oportuno mencioná-lo agora, para que ninguém suponha que, naquele breve tempo durante o qual o diabo estará solto, não haverá Igreja alguma sobre a terra, seja porque o diabo não encontre Igreja, seja porque a destrua por meio de múltiplas perseguições.
O diabo, pois, não está preso durante todo o tempo que este livro abrange, isto é, desde a primeira vinda de Cristo até o fim do mundo, quando Ele virá pela segunda vez; não está preso neste sentido, de que durante este intervalo, que recebe o nome de mil anos, ele não seduzirá a Igreja, pois nem mesmo quando solto a seduzirá. Pois certamente, se o seu estar preso significa que ele não é capaz, ou não lhe é permitido, seduzir a Igreja, que pode a sua libertação significar senão que ele é capaz, ou que lhe é permitido, fazê-lo? Mas longe esteja que tal seja o caso!
Mas a prisão do diabo consiste em ser ele impedido do exercício de todo o seu poder de seduzir os homens, seja forçando-os violentamente, seja enganando-os fraudulentamente a tomar parte com ele. Se durante tão longo período lhe fosse permitido assaltar a fraqueza dos homens, muitíssimas pessoas, tais que Deus não desejaria expor a semelhante tentação, teriam a sua fé derrubada, ou seriam impedidas de crer; e, para que isto não aconteça, ele é preso.
Mas, quando vier o breve tempo, ele será solto. Pois bramirá com toda a força de si mesmo e de seus anjos por três anos e seis meses; e aqueles a quem ele fizer guerra terão poder para resistir a toda a sua violência e a todos os seus estratagemas. E, se ele jamais fosse solto, o seu poder malicioso seria menos manifesto, e menor prova se daria da firme fortaleza da cidade santa: em suma, ficaria menos manifesto que bom uso o Todo-Poderoso faz do grande mal dele.
Pois o Todo-Poderoso não exclui absolutamente os santos da tentação dele, mas protege somente o seu homem interior, onde reside a fé, para que, pela tentação exterior, cresçam em graça. E o prende para que não venha, no livre e ávido exercício da sua malícia, impedir ou destruir a fé daqueles inumeráveis fracos, já crentes ou ainda por crer, dos quais a Igreja deve ser acrescentada e completada; e por fim o soltará, para que a cidade de Deus veja quão poderoso adversário venceu, para grande glória do seu Redentor, Auxiliador e Libertador.
E que somos nós em comparação com aqueles crentes e santos que então existirão, visto que serão provados pela libertação de um inimigo com quem fazemos guerra com o maior perigo até mesmo quando ele está preso? Embora também seja certo que, mesmo neste período intermediário, houve e há alguns soldados de Cristo tão sábios e fortes que, se estivessem vivos nesta condição mortal no tempo da libertação dele, tanto se precaveriam com a maior sabedoria, quanto suportariam com a máxima paciência, todas as suas ciladas e assaltos.
Ora, o diabo foi assim preso não somente quando a Igreja começou a estender-se cada vez mais amplamente entre as nações para além da Judeia, mas está agora preso e permanecerá preso até o fim do mundo, quando deverá ser solto. Porque ainda agora os homens são, e sem dúvida até o fim do mundo serão, convertidos à fé a partir da incredulidade em que ele os mantinha.
E este forte é preso em cada caso em que é despojado de um dos seus bens; e o abismo no qual está encerrado não chega ao fim quando morrem aqueles que estavam vivos quando ele foi pela primeira vez nele encerrado, mas a estes sucederam, e até o fim do mundo sucederão, outros nascidos depois deles com semelhante ódio aos cristãos, em cujos cegos corações, na sua profundeza, ele está continuamente encerrado como num abismo. Mas é questão saber se, durante estes três anos e seis meses em que ele estará solto e bramando com toda a sua força, algum que não tenha previamente crido se ligará à fé.
Pois, nesse caso, como subsistiriam verdadeiras as palavras: "Quem entra na casa de um forte para despojar os seus bens, sem primeiro ter atado o forte?" Por conseguinte, este versículo parece compelir-nos a crer que, durante aquele tempo, por breve que seja, ninguém será acrescentado à comunidade cristã, mas que o diabo fará guerra com aqueles que previamente se tornaram cristãos, e que, ainda que alguns destes possam ser vencidos e desertar para o diabo, estes não pertencem ao número predestinado dos filhos de Deus. Pois não é sem razão que João, o mesmo apóstolo que escreveu este Apocalipse, diz na sua epístola acerca de certas pessoas: "Saíram dentre nós, mas não eram dos nossos; pois, se fossem dos nossos, sem dúvida teriam permanecido conosco." Mas que será dos pequeninos?
Pois está além de toda crença que nesses dias não se encontrem alguns filhos cristãos nascidos, mas ainda não batizados, e que não haja também alguns nascidos durante aquele mesmo período; e, se os houver, não podemos crer que os seus pais não encontrem algum modo de levá-los à fonte da regeneração. Mas, se assim for, como serão estes bens arrebatados ao diabo quando ele estiver solto, visto que na sua casa ninguém entra para despojar os seus bens sem primeiro tê-lo atado?
Ao contrário, devemos antes crer que nesses dias não faltarão nem os que se afastam da Igreja, nem os que a ela se ligam; mas haverá tal resolução, tanto nos pais em buscar o batismo para os seus pequeninos, quanto naqueles que então primeiro crerem, que vencerão aquele forte, ainda que desatado, isto é, tanto o compreenderão vigilantemente, quanto o suportarão com paciência, embora ele empregue tais ardis e desfira tal força como nunca antes usou; e assim lhe serão arrebatados, ainda que ele esteja desatado.
E contudo o versículo do Evangelho não será falso: "Quem entra na casa do forte para despojar os seus bens, sem primeiro ter atado o forte?" Pois, em conformidade com este verdadeiro dito, observa-se aquela ordem: primeiro atado o forte, e depois despojados os seus bens; pois a Igreja é de tal modo acrescentada pelos fracos e fortes de todas as nações, próximas e distantes, que, pela sua robustíssima fé nas coisas divinamente preditas e cumpridas, será capaz de despojar os bens do diabo, mesmo desatado.
Pois, assim como devemos reconhecer que, "abundando a iniquidade, o amor de muitos se esfriará", e que aqueles que não foram escritos no livro da vida cederão em grande número às severas e inéditas perseguições e estratagemas do diabo então solto, assim também não podemos deixar de pensar que não somente aqueles que aquele tempo encontrar sãos na fé, mas também alguns que até então estiverem de fora, se tornarão firmes na fé que até ali rejeitaram, e poderosos para vencer o diabo, ainda que desatado, ajudando-os a graça de Deus a compreender as Escrituras, nas quais, entre outras coisas, está predito aquele mesmo fim que eles próprios veem estar chegando.
E, se assim for, da sua prisão se há de falar como precedente, para que se siga um despojamento dele, tanto atado quanto solto; pois é a respeito disto que se diz: "Quem entrará na casa do forte para despojar os seus bens, sem primeiro ter atado o forte?"