A Cidade de Deus - Livro XX 16

Livro XX: o juízo final de Deus e a ressurreição dos mortos

Do novo céu e da nova terra

Tendo concluído a profecia do juízo, no que diz respeito aos ímpios, resta que fale também dos bons.
Tendo explicado brevemente as palavras do Senhor: "Estes irão para o suplício eterno", resta que explique as palavras a elas ligadas: "mas os justos para a vida eterna". "E vi", diz ele, "um novo céu e uma nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar não existe." Isto se dará na ordem que ele de antemão declarou nas palavras: "Vi Aquele que estava assentado no trono, de cuja face fugiram o céu e a terra." Pois, logo que aqueles que não estão escritos no livro da vida tiverem sido julgados e lançados no fogo eterno (cuja natureza, ou cuja posição no mundo ou no universo, suponho que a nenhum homem seja conhecida, a não ser que porventura o Espírito divino o revele a alguém), então passará a figura deste mundo numa conflagração de fogo universal, assim como outrora o mundo foi inundado por um dilúvio de água universal.
E, por essa conflagração universal, as qualidades dos elementos corruptíveis que convinham aos nossos corpos corruptíveis perecerão de todo, e a nossa substância receberá tais qualidades que, por uma transmutação admirável, se harmonizarão com os nossos corpos imortais, de modo que, assim como o próprio mundo é renovado para algo melhor, ele é convenientemente acomodado aos homens, eles mesmos renovados em sua carne para algo melhor. Quanto à afirmação "E o mar não existirá", não diria com leviandade se ele se esgota por aquele calor excessivo, ou se ele também se converte em algo melhor.
Pois lemos que haverá um novo céu e uma nova terra, mas não me lembro de ter lido em parte alguma coisa alguma sobre um novo mar, a não ser o que encontro neste mesmo livro: "Como que um mar de vidro semelhante ao cristal." Mas ele não falava então deste fim do mundo, nem parece falar de um mar literal, e sim "como que um mar". É possível que, assim como a dicção profética se compraz em mesclar linguagem figurada e linguagem real, e desse modo de certa forma velar o sentido, também as palavras "E o mar não existe" possam ser tomadas no mesmo sentido da frase anterior: "E o mar entregou os mortos que nele havia." Pois então não haverá mais nada deste mundo, não haverá mais os tumultos e a inquietação da vida humana, e é isto que é simbolizado pelo mar.