Capítulos

A Cidade de Deus - Livro XIX

A Cidade de Deus, de Agostinho

A Cidade de Deus, de Agostinho de Hipona (354-430), foi escrita entre 413 e 426 e se divide em 22 livros. O saque de Roma por Alarico em 410 deu o impulso à obra: pagãos atribuíam a catástrofe ao abandono dos antigos deuses, e Agostinho respondeu com uma defesa do cristianismo e uma teologia da história. A obra contrasta a cidade terrena, fundada no amor de si, e a cidade de Deus, fundada no amor a Deus. Os livros I a X refutam o paganismo, e os livros XI a XXII tratam da origem, do curso e do fim das duas cidades.

O Livro XIX na obra

O Livro XIX abre a seção final da obra, dedicada ao destino último das duas cidades, e é frequentemente lido como o ponto em que Agostinho expõe sua ética e sua filosofia política. O argumento parte do levantamento de Varrão sobre as 288 seitas filosóficas e suas definições da felicidade para sustentar que o verdadeiro sumo bem não está em coisa alguma desta vida, mas na vida eterna. Para isso, Agostinho insiste nas misérias da existência presente, percorrendo a casa, a cidade e o mundo, e nota que até as guerras chamadas justas são motivo de pesar.

O eixo do livro é a paz. Agostinho a define como a tranquilidade da ordem e descreve uma escala que vai da paz do corpo à paz da cidade celeste, distinguindo a paz parcial e instável da cidade terrena da paz plena reservada à cidade de Deus. A cidade celeste, peregrina na terra, faz uso da paz terrena sem nela repousar, ordenando-a à paz do céu. Na parte final, Agostinho retoma a definição de república atribuída a Cipião no De Republica de Cícero para argumentar que onde não há verdadeira religião não há verdadeira justiça, e portanto nunca houve uma república romana no sentido estrito, embora Roma seja um povo por uma definição mais ampla, dada pelo objeto de seu amor comum.

“A paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem.”

Agostinho de Hipona, A Cidade de Deus - Livro XIX 13:2

Conteúdo do Livro

Recepção

Este livro teve influência duradoura na filosofia política ocidental. A definição de paz como tranquilidade da ordem e a tese de que a justiça plena exige o culto ao Deus verdadeiro foram retomadas por autores medievais e debatidas por estudiosos modernos, que discutem se Agostinho nega de todo legitimidade ao Estado pagão ou apenas a sua justiça perfeita. A releitura ciceroniana da república, no capítulo 21, é uma das passagens mais citadas da obra, e fornece um dos poucos fragmentos conhecidos do De Republica de Cícero, perdido em sua maior parte.

Texto e Tradução

Nota: aqui em português ao lado do inglês da tradução clássica de Marcus Dods (1871, domínio público), com citação por livro, capítulo e seção.