A Cidade de Deus - Livro XIX 2
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
Como Varrão, removendo todas as diferenças que não formam seitas, mas são apenas questões secundárias, chega a três definições do sumo bem, das quais devemos escolher uma
O mesmo se pode dizer daqueles três gêneros de vida: a vida do ócio dedicado ao estudo e à busca da verdade, a vida de fácil ocupação com os negócios, e a vida em que ambas se mesclam. Quando se pergunta qual delas deve ser adotada, isso não envolve nenhuma controvérsia acerca do fim do bem, mas indaga qual destas três coloca o homem na melhor posição para encontrar e conservar o sumo bem. Pois este bem, tão logo o homem o encontra, torna-o feliz; mas o ócio das letras, ou os negócios públicos, ou a alternância entre estes, não constituem necessariamente a felicidade.
Muitos, de fato, conseguem adotar um ou outro destes modos de vida e, contudo, deixar de alcançar aquilo que torna o homem feliz. A questão, portanto, acerca do sumo bem e do sumo mal, e que distingue as seitas filosóficas, é uma só; e estas questões a respeito da vida social, da dúvida da Academia, da veste e do alimento dos cínicos, dos três modos de vida (o ativo, o contemplativo e o misto), são questões diversas, em nenhuma das quais entra a questão do sumo bem.
E portanto, assim como Marco Varrão multiplicou as seitas até o número de 288 (ou qualquer número maior que escolhesse), introduzindo estas quatro diferenças derivadas da vida social, da Nova Academia, dos cínicos e da tríplice forma de vida, assim também, removendo estas diferenças por não terem nenhuma relação com o sumo bem, e por não constituírem, portanto, aquilo que propriamente se pode chamar seitas, ele retorna àquelas doze escolas que se ocupam de indagar qual seja aquele bem que torna o homem feliz, e mostra que uma delas é verdadeira e as demais falsas.
Em outras palavras, ele descarta a distinção fundada no tríplice modo de vida, e assim reduz o número total em dois terços, baixando as seitas a noventa e seis. Em seguida, pondo de lado as peculiaridades dos cínicos, o número decresce pela metade, para quarenta e oito. Suprimindo depois a distinção ocasionada pela hesitação da Nova Academia, o número é novamente reduzido à metade, baixando a vinte e quatro. Tratando de modo semelhante a diversidade introduzida pela consideração da vida social, restam apenas doze, que esta diferença havia duplicado para vinte e quatro.
Quanto a estas doze, não se pode apontar razão alguma pela qual não devam ser chamadas seitas. Pois nelas a única indagação diz respeito ao sumo bem e ao mal último, isto é, ao sumo bem, pois, uma vez encontrado este, encontra-se com isso o mal oposto. Ora, para formar estas doze seitas, ele multiplica por três estas quatro coisas: o prazer, o repouso, o prazer e o repouso combinados, e os objetos primários da natureza, que Varrão chama de primigênios.
Pois, assim como estas quatro coisas ora são subordinadas à virtude, de modo que pareçam ser desejadas não por si mesmas, mas por causa da virtude; ora são preferidas a ela, de modo que a virtude pareça necessária não por si mesma, mas a fim de alcançar estas coisas; ora são unidas a ela, de modo que tanto elas quanto a virtude sejam desejadas por si mesmas, devemos multiplicar as quatro por três, e assim obtemos doze seitas.
Mas daquelas quatro coisas Varrão elimina três (o prazer, o repouso, o prazer e o repouso combinados), não porque julgue que estas não sejam dignas do lugar que lhes foi atribuído, mas porque estão incluídas nos objetos primários da natureza. E que necessidade há, afinal, de fazer uma divisão tríplice destes dois fins, o prazer e o repouso, tomando-os primeiro separadamente e depois conjuntamente, visto que tanto eles, quanto muitas outras coisas além, estão compreendidos nos objetos primários da natureza? Qual das três seitas restantes deve ser escolhida? Esta é a questão sobre a qual Varrão se detém.
Pois, quer se escolha uma destas três, quer alguma outra, a razão proíbe que mais de uma seja verdadeira. Isto veremos depois; mas, entretanto, expliquemos do modo mais breve e claro que pudermos como Varrão faz a sua escolha dentre estas três, isto é, dentre as seitas que respectivamente sustentam que os objetos primários da natureza devem ser desejados por causa da virtude, que a virtude deve ser desejada por causa deles, e que tanto a virtude quanto estes objetos devem ser desejados cada qual por si mesmo.