A Cidade de Deus - Livro XIX 10
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
A recompensa preparada para os santos depois de haverem suportado a provação desta vida
Mas nem mesmo os santos e fiéis adoradores do único Deus verdadeiro e altíssimo estão a salvo das múltiplas tentações e enganos dos demônios. Pois nesta morada de fraqueza, e nestes dias maus, este estado de ansiedade tem também a sua utilidade, estimulando-nos a buscar com anseio mais ardente aquela segurança em que a paz é completa e inexpugnável. Lá fruiremos os dons da natureza, isto é, tudo aquilo que Deus, o Criador de todas as naturezas, conferiu à nossa: dons não apenas bons, mas eternos; não apenas do espírito, agora curado pela sabedoria, mas também do corpo renovado pela ressurreição.
Lá as virtudes não estarão mais lutando contra vício ou mal algum, mas fruirão a recompensa da vitória, a paz eterna que nenhum adversário perturbará. Esta é a bem-aventurança final, esta a consumação última, o fim que não tem fim. Aqui, na verdade, dizemos ser bem-aventurados quando possuímos tal paz quanto se pode fruir numa vida boa; mas tal bem-aventurança não passa de miséria, comparada àquela felicidade final.
Quando nós, mortais, possuímos tal paz quanto esta vida mortal pode oferecer, a virtude, se vivemos retamente, faz reto uso das vantagens desta condição pacífica; e quando não a possuímos, a virtude faz bom uso até dos males que o homem padece. Mas esta é a verdadeira virtude: quando refere todas as vantagens de que faz bom uso, e tudo o que realiza ao fazer bom uso das coisas boas e más, e a si mesma também, àquele fim em que fruiremos a melhor e maior paz possível.