A Cidade de Deus - Livro XIX 11

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Da felicidade da paz eterna, que constitui o fim ou a verdadeira perfeição dos santos

E assim podemos dizer da paz o que dissemos da vida eterna: que ela é o fim do nosso bem; e tanto mais porque o salmista diz da cidade de Deus, tema desta laboriosa obra: "Louva ao Senhor, ó Jerusalém; louva ao teu Deus, ó Sião: porque Ele reforçou os ferrolhos das tuas portas; abençoou os teus filhos dentro de ti; Ele que fez da paz os teus confins." Pois, quando os ferrolhos das suas portas estiverem reforçados, ninguém entrará nela nem dela sairá; por conseguinte, devemos entender a paz dos seus confins como aquela paz final que desejamos declarar.
Pois até mesmo o nome místico da própria cidade, isto é, Jerusalém, significa, como disse, "Visão de Paz". Mas, como a palavra paz é empregada em conexão com coisas deste mundo, nas quais certamente a vida eterna não tem lugar, preferimos chamar o fim ou bem supremo desta cidade de vida eterna, antes que de paz.
Deste fim diz o apóstolo: "Mas agora, libertados do pecado, e feitos servos de Deus, tendes o vosso fruto para a santificação, e por fim a vida eterna." Por outro lado, porém, como aqueles que não estão familiarizados com a Escritura podem supor que a vida dos ímpios seja vida eterna, quer por causa da imortalidade da alma, que até alguns dos filósofos reconheceram, quer por causa do castigo sem fim dos ímpios, que faz parte da nossa fé, e que parece impossível a menos que os ímpios vivam para sempre, pode ser, portanto, aconselhável, a fim de que todos compreendam prontamente o que queremos dizer, afirmar que o fim ou bem supremo desta cidade é ou a paz na vida eterna, ou a vida eterna na paz.
Pois a paz é um bem tão grande que, mesmo nesta vida terrena e mortal, não palavra que ouçamos com tanto prazer, nada que desejemos com tanto ardor, nem que achemos mais plenamente gratificante. De modo que, se nos detivermos um pouco mais sobre este assunto, não seremos, a meu ver, enfadonhos para os nossos leitores, que estarão atentos tanto para compreender qual é o fim desta cidade de que falamos, quanto pela doçura da paz, que é cara a todos.