A Cidade de Deus - Livro XIX 27

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Que a paz dos que servem a Deus não pode, nesta vida mortal, ser alcançada em sua perfeição

Mas a paz que nos é própria nós a desfrutamos agora com Deus pela fé, e a desfrutaremos depois eternamente com Ele pela visão. Ora, a paz de que gozamos nesta vida, seja a comum a todos, seja a que nos é própria, é antes o consolo de nossa miséria do que o gozo positivo da felicidade. Também a nossa própria justiça, ainda que verdadeira enquanto diz respeito ao verdadeiro bem, é contudo, nesta vida, de tal natureza que consiste antes na remissão dos pecados do que na perfeição das virtudes.
Testemunha disso é a oração de toda a cidade de Deus em seu estado de peregrinação, pois ela clama a Deus pela boca de todos os seus membros: "Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nós perdoamos aos nossos devedores." E esta oração é eficaz não para aqueles cuja é "sem obras e morta", mas para aqueles cuja "opera pela caridade". Pois, assim como a razão, embora submetida a Deus, é todavia "oprimida pelo corpo corruptível" enquanto permanece nesta condição mortal, ela não tem autoridade perfeita sobre o vício, e por isso esta oração é necessária aos justos. Pois, ainda que exerça autoridade, os vícios não se submetem sem luta.
Pois, por melhor que alguém sustente o conflito, e por mais completamente que tenha subjugado esses inimigos, insinua-se algum mal que, se não encontra expressão pronta no ato, escapa pelos lábios ou se introduz no pensamento; e por isso a sua paz não é plena enquanto está em guerra com os seus vícios. Pois é um conflito incerto o que ele trava com os que resistem, e a sua vitória sobre os que foram derrotados não é segura, mas cheia de ansiedade e de esforço.
Em meio a estas tentações, portanto, de todas as quais se disse sumariamente nos oráculos divinos: "Não é a vida humana sobre a terra uma tentação?", quem, senão um homem soberbo, pode presumir que vive de tal modo que não tem necessidade de dizer a Deus: "Perdoa-nos as nossas dívidas"? E tal homem não é grande, mas inchado e enfunado de vaidade, e com justiça lhe resiste Aquele que abundante graça aos humildes.
Donde se diz: "Deus resiste aos soberbos, mas graça aos humildes." Nisto, pois, consiste a justiça do homem: que ele se submeta a Deus, o seu corpo à sua alma, e os seus vícios, ainda quando se rebelam, à sua razão, que ou os vence ou ao menos lhes resiste; e também que peça a Deus a graça de cumprir o seu dever, e o perdão de seus pecados, e que renda a Deus graças por todos os benefícios que recebe.
Mas, naquela paz final à qual se refere toda a nossa justiça, e por causa da qual ela é mantida, assim como a nossa natureza desfrutará de uma imortalidade e incorrupção, e não terá mais vícios, e como não experimentaremos resistência alguma, nem de nós mesmos nem dos outros, não será necessário que a razão domine vícios que não existem, mas Deus dominará o homem, e a alma dominará o corpo, com uma doçura e facilidade condizentes com a felicidade de uma vida que se acabou com a servidão.
E esta condição ali será eterna, e teremos a certeza de sua eternidade; e assim a paz desta bem-aventurança e a bem-aventurança desta paz serão o sumo bem.