A Cidade de Deus - Livro XIX 15
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
Da liberdade própria à natureza do homem e da servidão introduzida pelo pecado: servidão na qual o homem de vontade má é escravo da própria concupiscência, ainda que seja livre no que diz respeito aos outros homens
Isto é prescrito pela ordem da natureza: foi assim que Deus criou o homem. Pois "dominem", diz Ele, "sobre os peixes do mar, sobre as aves do céu e sobre todo réptil que rasteja sobre a terra". Não quis que a sua criatura racional, feita à sua imagem, tivesse domínio senão sobre a criação irracional: não o homem sobre o homem, mas o homem sobre os animais.
E daí que os homens justos dos tempos primitivos foram feitos pastores de rebanhos, antes que reis de homens, querendo assim Deus ensinar-nos qual é a posição relativa das criaturas e qual o merecimento do pecado; pois é com justiça, cremos nós, que a condição de servidão resulta do pecado. E é por isso que não encontramos a palavra "escravo" em parte alguma da Escritura, até que o justo Noé marcou com este nome o pecado de seu filho. É, portanto, um nome introduzido pelo pecado, e não pela natureza.
Supõe-se que a origem da palavra latina para escravo se encontre na circunstância de que aqueles que, pela lei da guerra, estavam sujeitos a ser mortos eram por vezes poupados pelos seus vencedores, e por isso eram chamados servos. E tais circunstâncias jamais poderiam ter surgido a não ser pelo pecado. Pois mesmo quando travamos uma guerra justa, os nossos adversários hão de estar pecando; e toda vitória, ainda que alcançada por homens ímpios, é resultado do primeiro juízo de Deus, que humilha os vencidos, seja para remover, seja para punir os seus pecados.
Testemunha disso é aquele homem de Deus, Daniel, que, estando no cativeiro, confessou a Deus os seus próprios pecados e os pecados de seu povo, e declara, com piedosa dor, que estes foram a causa do cativeiro. A causa primeira, portanto, da servidão é o pecado, que põe o homem sob o domínio de seu semelhante: o que não acontece senão pelo juízo de Deus, em quem não há injustiça, e que sabe distribuir as penas adequadas a cada espécie de ofensa.
Mas o nosso Mestre no céu diz: "Todo aquele que comete pecado é escravo do pecado". E assim há muitos senhores ímpios que têm homens religiosos por escravos, e que, contudo, são eles próprios cativos; "pois de quem alguém é vencido, do mesmo se faz escravo". E sem dúvida é coisa mais feliz ser escravo de um homem do que de uma concupiscência; pois esta mesma concupiscência de dominar, para não mencionar outras, devasta o coração dos homens com o mais impiedoso domínio. Além disso, quando os homens estão sujeitos uns aos outros numa ordem pacífica, a posição humilde faz tanto bem ao servo quanto a posição soberba faz mal ao senhor.
Mas por natureza, tal como Deus a princípio nos criou, ninguém é escravo nem do homem nem do pecado. Esta servidão, contudo, é penal, e é instituída por aquela lei que ordena a conservação da ordem natural e proíbe a sua perturbação; pois, se nada tivesse sido feito em violação dessa lei, nada haveria a refrear pela servidão penal.
E por isso o apóstolo admoesta os escravos a serem submissos aos seus senhores, e a servi-los de coração e com boa vontade, de modo que, se não puderem ser libertados pelos seus senhores, eles próprios tornem de algum modo livre a sua servidão, servindo não com temor astuto, mas com amor fiel, até que toda injustiça desapareça, e todo principado e todo poder humano sejam reduzidos a nada, e Deus seja tudo em todos.