A Cidade de Deus - Livro XIX 4

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

O que os cristãos creem a respeito do sumo bem e do sumo mal, em oposição aos filósofos, que sustentaram que o sumo bem está em si mesmos

Se, então, nos perguntarem o que a cidade de Deus tem a dizer sobre estes pontos, e, em primeiro lugar, qual é a sua opinião a respeito do sumo bem e do sumo mal, ela responderá que a vida eterna é o sumo bem e a morte eterna o sumo mal, e que, para alcançar uma e escapar da outra, devemos viver retamente. E assim está escrito: "O justo vive pela fé", pois ainda não vemos o nosso bem e, portanto, devemos viver pela fé; nem temos em nós mesmos o poder de viver retamente, mas o podemos fazer se Aquele que nos deu a para crer em seu auxílio nos ajudar quando cremos e oramos.
Quanto àqueles que supuseram que o sumo bem e o sumo mal se encontram nesta vida, e o situaram ou na alma, ou no corpo, ou em ambos, ou, para falar mais explicitamente, ou no prazer, ou na virtude, ou em ambos; no repouso, ou na virtude, ou em ambos; no prazer e no repouso, ou na virtude, ou em todos combinados; nos objetos primários da natureza, ou na virtude, ou em ambos, todos estes, com espantosa superficialidade, buscaram encontrar a sua bem-aventurança nesta vida e em si mesmos.
Sobre tais ideias derramou-se o desprezo da Verdade, que diz pelo profeta: "O Senhor conhece os pensamentos dos homens" (ou, como o apóstolo Paulo cita a passagem, "O Senhor conhece os pensamentos dos sábios") "que são vãos".
Pois que torrente de eloquência poderia bastar para detalhar as misérias desta vida? Cícero, na Consolação pela morte de sua filha, empregou toda a sua habilidade em lamentação; mas quão inadequada foi ainda aqui mesmo essa sua habilidade? Pois quando, onde, como, nesta vida, podem esses objetos primários da natureza ser possuídos de modo a não serem assaltados por acidentes imprevistos? Está o corpo do sábio isento de qualquer dor que possa dissipar o prazer, de qualquer inquietação que possa banir o repouso?
A amputação ou a decomposição dos membros do corpo põe fim à sua integridade, a deformidade arruína a sua beleza, a fraqueza a sua saúde, o cansaço o seu vigor, a sonolência ou a preguiça a sua atividade, e qual destes males não poderia assaltar a carne do sábio? Atitudes e movimentos do corpo, graciosos e convenientes, contam-se entre as principais bênçãos naturais; mas que dizer se alguma doença faz os membros tremerem? Que dizer se um homem sofre de tamanha curvatura da coluna que as suas mãos chegam ao chão, e ele anda de quatro como um quadrúpede?
Não destrói isto toda a beleza e graça do corpo, seja em repouso, seja em movimento? Que direi das bênçãos fundamentais da alma, o sentido e o intelecto, dos quais um é dado para a percepção e o outro para a compreensão da verdade? Mas que espécie de sentido é o que resta quando um homem se torna surdo e cego? Onde estão a razão e o intelecto quando a doença torna um homem delirante? Dificilmente, ou de modo algum, conseguimos conter as lágrimas quando pensamos ou vemos os atos e as palavras de tais pessoas frenéticas, e consideramos quão diferente, e até mesmo oposto, é o seu comportamento presente em relação ao seu próprio juízo sóbrio e à sua conduta habitual.
E que direi daqueles que sofrem de possessão demoníaca? Onde está oculta e sepultada a sua própria inteligência enquanto o espírito maligno usa o seu corpo e a sua alma segundo a sua própria vontade? E quem está bem certo de que tal coisa não possa acontecer ao sábio nesta vida?
Então, quanto à percepção da verdade, que podemos esperar mesmo por esta via enquanto estamos no corpo, como lemos no verdadeiro livro da Sabedoria: "O corpo corruptível pesa sobre a alma, e a tenda terrestre oprime a mente que medita sobre muitas coisas"? E o ímpeto, ou desejo de ação, se este é o sentido correto a atribuir ao grego ὁρμή, também é contado entre as vantagens primárias da natureza; e contudo não é justamente isto que produz aqueles lamentáveis movimentos dos insanos, e aquelas ações que estremecemos ao ver, quando o sentido é enganado e a razão transtornada?
Por fim, a própria virtude, que não está entre os objetos primários da natureza, mas sucede a eles como resultado da aprendizagem, embora ocupe o lugar mais alto entre os bens humanos, qual é a sua ocupação senão travar guerra perpétua com os vícios, não os que estão fora de nós, mas dentro; não os de outros homens, mas os nossos próprios, guerra que é travada especialmente por aquela virtude que os gregos chamam σωφροσύνη, e nós temperança, e que refreia as concupiscências carnais, e as impede de obter o consentimento do espírito para obras más?
Pois não devemos imaginar que não vício em nós, quando, como diz o apóstolo, "a carne cobiça contra o espírito"; pois a este vício uma virtude contrária, quando, como diz o mesmo escritor, "o espírito cobiça contra a carne". "Porque estes", diz ele, "são contrários um ao outro, de modo que não podeis fazer as coisas que quereríeis". Mas que é que desejamos fazer quando buscamos alcançar o sumo bem, senão que a carne cesse de cobiçar contra o espírito, e que não haja em nós vício algum contra o qual o espírito possa cobiçar?
E visto que não podemos alcançar isto na vida presente, por mais ardentemente que o desejemos, ao menos isto realizemos com a ajuda de Deus: preservar a alma de sucumbir e ceder à carne que cobiça contra ela, e recusar o nosso consentimento à perpetração do pecado. Longe esteja de nós, então, imaginar que, enquanto ainda estamos empenhados nesta guerra intestina, encontramos a felicidade que buscamos alcançar pela vitória. E quem tão sábio que não tenha conflito algum a sustentar contra os seus vícios?
Que direi daquela virtude que se chama prudência? Não é toda a sua vigilância gasta no discernimento das coisas boas das más, para que não se admita erro algum sobre o que devemos desejar e o que evitar? E assim ela mesma é prova de que estamos no meio de males, ou de que males em nós; pois ela nos ensina que é um mal consentir no pecado, e um bem recusar este consentimento. E contudo este mal, ao qual a prudência nos ensina e a temperança nos capacita a não consentir, não é removido desta vida nem pela prudência nem pela temperança.
E a justiça, cujo ofício é dar a cada um o que lhe é devido, pela qual no próprio homem certa ordem justa da natureza, de modo que a alma esteja sujeita a Deus, e a carne à alma, e por consequência tanto a alma como a carne a Deus, não demonstra esta virtude que ela está antes labutando para o seu fim do que repousando na sua obra acabada? Pois a alma está tanto menos sujeita a Deus quanto menos se ocupa do pensamento de Deus; e a carne está tanto menos sujeita ao espírito quanto mais veementemente cobiça contra o espírito.
Enquanto, portanto, estamos cercados por esta fraqueza, esta praga, esta enfermidade, como ousaremos dizer que estamos seguros? E, se não seguros, como podemos estar gozando a nossa bem-aventurança final? Então aquela virtude que recebe o nome de fortaleza é a prova mais clara dos males da vida, pois são estes males que ela é compelida a suportar com paciência. E isto vale, ainda que a mais madura sabedoria coexista com ela.
E não consigo compreender como os filósofos estoicos podem presumir dizer que estes não são males, ainda que ao mesmo tempo permitam ao sábio cometer suicídio e sair desta vida se eles se tornarem tão graves que ele não possa ou não deva suportá-los.
Mas tal é o estúpido orgulho destes homens, que imaginam que o sumo bem pode ser encontrado nesta vida, e que podem tornar-se felizes pelos seus próprios recursos, que o seu sábio, ou ao menos o homem que eles fantasiosamente assim descrevem, é sempre feliz, ainda que se torne cego, surdo, mudo, mutilado, atormentado por dores, ou sofra qualquer calamidade concebível que possa compeli-lo a dar cabo de si mesmo; e não se envergonham de chamar feliz à vida que está cercada por estes males. Ó vida feliz, que busca o auxílio da morte para acabar com ela!
Se é feliz, que o sábio permaneça nela; mas se estes males o expulsam dela, em que sentido é feliz? Ou como podem dizer que não são males aqueles que vencem a virtude da fortaleza, e a forçam não a ceder, mas a delirar de tal modo que num fôlego chama feliz à vida e recomenda que se a abandone? Pois quem é tão cego que não veja que, se ela fosse feliz, dela não se fugiria? E se dizem que dela devemos fugir por causa das enfermidades que a cercam, por que então não abaixam o seu orgulho e reconhecem que ela é miserável?
Foi, eu pergunto, a fortaleza ou a fraqueza que levou Catão a matar-se? Pois ele não o teria feito se não fosse demasiado fraco para suportar a vitória de César. Onde está, então, a sua fortaleza? Ela cedeu, ela sucumbiu, ela foi tão completamente vencida a ponto de abandonar, desertar, fugir desta vida feliz. Ou não era feliz? Então era miserável. Como, então, não eram males aqueles que tornavam a vida miserável, e coisa da qual se deve escapar?
E, portanto, aqueles que admitem que estes são males, como fazem os peripatéticos e a Antiga Academia, seita que Varrão defende, exprimem uma doutrina mais inteligível; mas a deles também é um erro surpreendente, pois sustentam que é feliz esta vida que está cercada por estes males, ainda que sejam tão grandes que aquele que os suporta deva cometer suicídio para escapar deles. "Dores e angústias do corpo", diz Varrão, "são males, e tanto piores quanto mais severos; e para escapar deles deves deixar esta vida." Que vida, pergunto eu? Esta vida, diz ele, que é oprimida por tais males.
Então ela é feliz em meio a esses mesmos males por causa dos quais dizes que devemos deixá-la? Ou a chamas feliz porque tens a liberdade de escapar destes males pela morte? Que seria, então, se por algum juízo secreto de Deus fosses retido firmemente e não te fosse permitido morrer, nem te fosse concedido viver sem estes males? Nesse caso, ao menos, dirias que tal vida era miserável. Ela é logo abandonada, sem dúvida, mas isto não a torna não miserável; pois, se fosse eterna, tu mesmo a declararias miserável. A sua brevidade, portanto, não a livra da miséria; nem deve ser chamada felicidade pelo fato de ser uma miséria breve.
Certamente uma força poderosa nestes males, que compele um homem, segundo eles até mesmo um sábio, a deixar de ser homem para escapar deles, embora digam, e digam com verdade, que é por assim dizer a primeira e mais forte exigência da natureza que o homem zele de si mesmo, e por isso naturalmente evite a morte, e seja de tal modo amigo de si próprio que deseje e veementemente almeje continuar a existir como criatura viva, e subsistir nesta união de alma e corpo.
uma força poderosa nestes males para vencer este instinto natural pelo qual a morte é por todos os meios e com todos os esforços do homem evitada, e vencê-lo tão completamente que aquilo que era evitado passa a ser desejado, buscado, e, se não pode de nenhum outro modo ser obtido, é infligido pelo homem a si mesmo. uma força poderosa nestes males, que faz da fortaleza uma homicida, se, de fato, de chamar-se fortaleza àquilo que é tão completamente vencido por estes males que não não consegue preservar pela paciência o homem que se incumbiu de governar e defender, mas é ela mesma obrigada a matá-lo.
O sábio, admito, deve suportar a morte com paciência, mas quando ela é infligida por outro. Se, então, como sustentam estes homens, ele é obrigado a infligi-la a si mesmo, certamente de reconhecer-se que os males que o compelem a isto não são apenas males, mas males intoleráveis.
A vida, então, que está sujeita a acidentes, ou cercada de males tão consideráveis e graves, nunca poderia ter sido chamada feliz, se os homens que lhe dão este nome tivessem condescendido em ceder à verdade, e em ser vencidos por argumentos válidos, quando indagavam sobre a vida feliz, assim como cedem à infelicidade, e são vencidos por males avassaladores, quando dão a morte a si mesmos, e se não tivessem imaginado que o sumo bem havia de encontrar-se nesta vida mortal; pois as próprias virtudes desta vida, que são certamente as suas melhores e mais úteis posses, são provas tanto mais eloquentes das suas misérias quanto mais úteis são contra a violência dos seus perigos, fadigas e aflições.
Pois, se estas são verdadeiras virtudes, e tais não podem existir senão naqueles que têm verdadeira piedade, elas não pretendem ser capazes de livrar os homens que as possuem de todas as misérias; pois as verdadeiras virtudes não dizem tais mentiras, mas professam que, pela esperança do mundo futuro, esta vida, que está miseravelmente envolvida nos muitos e grandes males deste mundo, é feliz à medida que também é segura. Pois, se ainda não é segura, como poderia ser feliz?
E, portanto, o apóstolo Paulo, falando não de homens sem prudência, temperança, fortaleza e justiça, mas daqueles cujas vidas eram reguladas pela verdadeira piedade, e cujas virtudes eram por isso verdadeiras, diz: "Porque na esperança fomos salvos. Ora, a esperança que se não é esperança; pois o que alguém vê, como o espera ainda? Mas, se esperamos o que não vemos, com paciência o aguardamos." Assim, portanto, como somos salvos, também somos feitos felizes pela esperança.
E, assim como ainda não possuímos uma salvação presente, mas esperamos uma salvação futura, assim sucede com a nossa felicidade, e isto "com paciência"; pois estamos cercados de males, que devemos suportar pacientemente, até chegarmos ao inefável gozo do bem sem mistura; pois então não haverá nada a suportar. A salvação, tal como será no mundo vindouro, será ela mesma a nossa felicidade final. E nesta felicidade estes filósofos se recusam a crer, porque não a veem, e tentam fabricar para si mesmos uma felicidade nesta vida, fundada sobre uma virtude que é tão enganosa quanto orgulhosa.