A Cidade de Deus - Livro XIX 8

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Que a amizade dos homens bons não nos pode dar repouso seguro, enquanto os perigos desta vida nos forçam a viver na ansiedade

Em nossa presente condição miserável, frequentemente tomamos um amigo por inimigo, e um inimigo por amigo. E, ainda que escapemos dessa lamentável cegueira, não é a confiança sincera e o amor mútuo dos verdadeiros e bons amigos o nosso único consolo na sociedade humana, repleta como está de mal-entendidos e calamidades? E, contudo, quanto mais amigos temos, e quanto mais amplamente estão dispersos, tanto mais numerosos são os nossos temores de que alguma parcela da vasta massa dos desastres da vida venha a abater-se sobre eles.
Pois não somente nos angustiamos com receio de que sofram fome, guerra, doença, cativeiro ou os inconcebíveis horrores da escravidão, mas somos também tomados por um pavor muito mais doloroso: o de que a sua amizade se converta em perfídia, malícia e injustiça. E quando tais contingências de fato ocorrem (como ocorrem tanto mais frequentemente quanto mais amigos temos, e quanto mais amplamente estão dispersos), e quando chegam ao nosso conhecimento, quem, senão aquele que o experimentou, poderá dizer com que dores é dilacerado o coração? Na verdade, preferiríamos ouvir que estavam mortos, embora nem mesmo isto pudéssemos ouvir sem angústia.
Pois, se a vida deles nos consolou com os encantos da amizade, será possível que a sua morte não nos afete com tristeza alguma? Aquele que não quiser nada dessa tristeza, deve, se possível, não ter convívio amistoso algum. Que ele interdite ou extinga o afeto amistoso; que rompa, com impiedosa insensibilidade, os laços de toda relação humana; ou que se engenhe de tal modo a usá-los, que nenhuma doçura se destile em seu espírito. Mas, se isto é absolutamente impossível, como nos havemos de engenhar para não sentir amargura alguma na morte daqueles cuja vida nos foi doce?
Daí surge aquela dor que afeta o coração terno como uma ferida ou uma contusão, e que se cura com a aplicação de uma consolação bondosa. Pois, embora a cura se efetue tanto mais fácil e rapidamente quanto melhor for a condição da alma, não devemos por isso supor que não haja absolutamente nada a curar.
Ainda que, portanto, a nossa presente vida seja afligida, ora em grau mais brando, ora mais doloroso, pela morte daqueles que nos são muito caros, e especialmente dos homens públicos úteis, contudo preferiríamos ouvir que tais homens estavam mortos a ouvir ou perceber que haviam caído da ou da virtude, isto é, por outras palavras, que estavam espiritualmente mortos.
Dessa vasta matéria de miséria está cheia a terra, e por isso está escrito: "Não é a vida humana sobre a terra uma provação?" E com a mesma referência diz o Senhor: "Ai do mundo por causa dos escândalos!" e ainda: "Porque a iniquidade abundará, o amor de muitos esfriará." E daí experimentamos certa satisfação quando os nossos bons amigos morrem; pois, embora a sua morte nos deixe na tristeza, temos a consoladora certeza de que estão a salvo dos males pelos quais, nesta vida, até mesmo os melhores dos homens são abatidos ou corrompidos, ou correm o risco de ambos os resultados.