A Cidade de Deus - Livro XIX 14
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
Da ordem e da lei que regem o céu e a terra, pela qual se dá que a sociedade humana é servida por aqueles que a governam
Todo o uso, portanto, das coisas temporais tem referência a este resultado da paz terrena na comunidade terrena, ao passo que, na cidade de Deus, está ligado à paz eterna. E por isso, se fôssemos animais irracionais, nada desejaríamos além da devida disposição das partes do corpo e da satisfação dos apetites, isto é, nada senão o conforto corporal e a abundância de prazeres, para que a paz do corpo contribuísse para a paz da alma. Pois, se faltar a paz corporal, levanta-se um obstáculo até mesmo à paz da alma irracional, visto que esta não pode obter a gratificação de seus apetites.
E essas duas coisas, juntas, favorecem a paz mútua da alma e do corpo, a paz de uma vida harmoniosa e da saúde. Pois, assim como os animais, ao evitar a dor, mostram que amam a paz corporal, e, ao buscar o prazer para gratificar seus apetites, mostram que amam a paz da alma, assim também o seu recuo diante da morte é indício suficiente do seu intenso amor por aquela paz que une a alma e o corpo em estreita aliança.
Mas, como o homem possui uma alma racional, ele subordina tudo isso que tem em comum com os animais à paz da sua alma racional, para que o seu intelecto tenha livre exercício e possa regular as suas ações, e para que assim ele desfrute da harmonia bem ordenada do conhecimento e da ação que constitui, como dissemos, a paz da alma racional. E, para esse fim, ele deve desejar não ser molestado pela dor, nem perturbado pelo desejo, nem extinto pela morte, a fim de chegar a algum conhecimento útil pelo qual possa regular a sua vida e os seus costumes.
Mas, dada a propensão da mente humana a cair em erros, essa mesma busca do conhecimento pode tornar-se um laço para ele, a menos que tenha um Mestre divino, a quem possa obedecer sem hesitação, e que ao mesmo tempo lhe dê tal auxílio que preserve a sua própria liberdade. E, porque, enquanto está neste corpo mortal, ele é peregrino longe de Deus, anda por fé, e não por vista; e por isso refere toda paz, corporal ou espiritual, ou ambas, àquela paz que o homem mortal tem com o Deus imortal, de modo que manifeste a obediência bem ordenada da fé à lei eterna.
Mas, como esse Mestre divino inculca dois preceitos, o amor de Deus e o amor do próximo, e como nesses preceitos o homem encontra três coisas que tem de amar, Deus, a si mesmo e o seu próximo, e visto que aquele que ama a Deus por isso mesmo ama a si próprio, segue-se que ele deve esforçar-se por levar o seu próximo a amar a Deus, pois lhe é ordenado que ame o próximo como a si mesmo.
Ele deve fazer esse esforço em favor da esposa, dos filhos, dos que pertencem à sua casa, de todos os que estão ao seu alcance, tal como desejaria que o seu próximo fizesse o mesmo por ele, caso disso necessitasse; e, por conseguinte, estará em paz, ou em concórdia bem ordenada, com todos os homens, na medida do que lhe é possível. E esta é a ordem dessa concórdia: que o homem, em primeiro lugar, a ninguém prejudique, e, em segundo, faça o bem a todo aquele que possa alcançar. Primariamente, portanto, os de sua própria casa são o seu cuidado, pois a lei da natureza e da sociedade lhe concede acesso mais pronto a eles e maior oportunidade de servi-los.
E daí diz o apóstolo: "Ora, se alguém não cuida dos seus, e principalmente dos da sua família, negou a fé e é pior do que o infiel." Esta é a origem da paz doméstica, ou da concórdia bem ordenada entre os que governam e os que obedecem na família. Pois aqueles que cuidam dos demais governam: o marido a esposa, os pais os filhos, os senhores os servos; e aqueles de quem se cuida obedecem: as mulheres aos seus maridos, os filhos aos seus pais, os servos aos seus senhores.
Mas, na família do homem justo que vive pela fé e é ainda peregrino a caminho da cidade celeste, até mesmo os que governam servem àqueles a quem parecem comandar; pois governam não por amor ao poder, mas por um senso do dever que devem aos outros, não porque se orgulhem da autoridade, mas porque amam a misericórdia.