A Cidade de Deus - Livro XIX 7

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Da diversidade das línguas, que impede a convivência entre os homens, e da miséria das guerras, mesmo das chamadas justas

Depois do estado ou da cidade vem o mundo, o terceiro círculo da sociedade humana, sendo o primeiro a casa e o segundo a cidade. E o mundo, assim como é maior, é também mais cheio de perigos, do mesmo modo que o mar maior é o mais perigoso. E aqui, em primeiro lugar, o homem está separado do homem pela diferença das línguas. Pois, se dois homens, cada um ignorante da língua do outro, se encontram e não são compelidos a passar adiante, mas, ao contrário, a permanecer em companhia, animais mudos, ainda que de espécies diferentes, manteriam mais facilmente convívio entre si do que eles, embora sejam seres humanos.
Pois a sua natureza comum de nada vale para a amizade quando estão impedidos pela diversidade da língua de comunicar um ao outro os seus sentimentos; de modo que um homem manteria mais prontamente convívio com o seu cão do que com um estrangeiro. Mas a cidade imperial empenhou-se em impor às nações sujeitas não somente o seu jugo, mas também a sua língua, como vínculo de paz, de sorte que os intérpretes, longe de serem escassos, são inumeráveis. Isto é verdade; mas quantas grandes guerras, quanta matança e derramamento de sangue proporcionaram esta unidade! E, ainda que tais coisas sejam passadas, o fim destas misérias ainda não chegou.
Pois, ainda que nunca tenham faltado, nem ainda faltem, nações hostis para além do império, contra as quais guerras foram e são travadas, todavia, supondo-se que não houvesse tais nações, a própria extensão do império em si produziu guerras de natureza mais detestável, as guerras sociais e civis, e com estas todo o gênero humano foi agitado, seja pelo conflito real, seja pelo temor de nova irrupção. Se eu tentasse dar uma descrição adequada destes múltiplos desastres, destas duras e duradouras necessidades, ainda que eu seja inteiramente incapaz para tal tarefa, que limite poderia eu estabelecer? Mas, dizem eles, o sábio travará guerras justas.
Como se ele não houvesse antes de lamentar a necessidade das guerras justas, se se lembra de que é homem; pois, se elas não fossem justas, não as travaria, e estaria por isso livre de todas as guerras. Pois é a injustiça da parte adversária que compele o sábio a travar guerras justas; e esta injustiça, ainda que não desse origem a guerra alguma, seria ainda motivo de pesar para o homem, porque é injustiça do homem. Que todo aquele, então, que pensa com dor em todos estes grandes males, tão horríveis, tão cruéis, reconheça que isto é miséria.
E, se alguém ou os suporta ou pensa neles sem dor mental, esta é uma condição ainda mais miserável, pois ele se julga feliz por ter perdido o sentimento humano.