A Cidade de Deus - Livro XIX 16

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Do governo equitativo

E por isso, embora os nossos justos antepassados tivessem escravos e administrassem os assuntos domésticos de modo a distinguir, no tocante aos bens desta vida, entre a condição dos escravos e a herança dos filhos, contudo, no que diz respeito ao culto de Deus, em quem esperamos os bens eternos, dispensavam igual e amorosa solicitude a todos os membros de sua casa. E isto está de tal modo conforme à ordem natural, que o chefe da casa era chamado pai de família (paterfamilias); e este nome foi tão universalmente aceito que até mesmo aqueles cujo governo é injusto se comprazem em aplicá-lo a si próprios.
Mas aqueles que são verdadeiros pais de suas famílias desejam e se esforçam por que todos os membros de sua casa, igualmente aos seus próprios filhos, adorem e conquistem a Deus, e cheguem àquela morada celestial em que o dever de governar os homens não é necessário, porque também cessou o dever de cuidar de sua felicidade eterna; mas, até que alcancem aquela morada, os senhores devem sentir sua posição de autoridade como um fardo maior do que os servos sentem o seu serviço.
E se algum membro da família perturba a paz doméstica pela desobediência, é corrigido seja por palavra, seja por castigo, ou por algum tipo de punição justa e legítima, tal como a sociedade permite, para que ele próprio se torne melhor por isso e seja reconduzido à harmonia familiar da qual se havia desligado. Pois, assim como não é benevolência prestar auxílio a um homem à custa de algum benefício maior que ele poderia receber, assim também não é inocência poupar um homem ao risco de que ele caia em pecado mais grave.
Para sermos inocentes, não devemos apenas não causar dano a homem algum, mas também afastá-lo do pecado ou punir o seu pecado, de modo que ou o próprio homem que é punido tire proveito de sua experiência, ou outros sejam advertidos pelo seu exemplo.
Visto, então, que a casa deve ser o princípio ou o elemento da cidade, e todo princípio se refere a algum fim de seu próprio gênero, e todo elemento à integridade do conjunto do qual é elemento, segue-se com bastante clareza que a paz doméstica tem relação com a paz civil; isto é, que a concórdia bem ordenada da obediência e do governo domésticos tem relação com a concórdia bem ordenada da obediência e do governo civis.
E por isso se segue, ademais, que o pai de família deve regular o seu governo doméstico em conformidade com a lei da cidade, de modo que a casa esteja em harmonia com a ordem civil.