A Cidade de Deus - Livro XIX 26

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Da paz de que goza o povo alienado de Deus e do uso que dela faz o povo de Deus no tempo de sua peregrinação

Por conseguinte, assim como a vida da carne é a alma, assim a vida bem-aventurada do homem é Deus, do qual os escritos sagrados dos hebreus dizem: "Bem-aventurado o povo cujo Deus é o Senhor." Miserável, portanto, é o povo que está alienado de Deus. Contudo, mesmo este povo tem uma paz que lhe é própria e que não deve ser desprezada levianamente, ainda que, na verdade, não venha a gozá-la no fim, porque não faz bom uso dela antes do fim. Mas é do nosso interesse que ele goze desta paz entrementes, nesta vida; pois, enquanto as duas cidades estão entremeadas, nós também gozamos da paz de Babilônia.
Pois de Babilônia o povo de Deus é de tal modo libertado que, entrementes, peregrina em sua companhia. E por isso também o apóstolo admoestou a Igreja a orar pelos reis e por aqueles que estão em autoridade, apontando como razão: "para que vivamos uma vida quieta e tranquila, em toda a piedade e amor." E o profeta Jeremias, ao predizer o cativeiro que havia de sobrevir ao antigo povo de Deus, e ao dar-lhes o mandamento divino de irem obedientemente para a Babilônia, e assim servirem ao seu Deus, aconselhou-os também a orar por Babilônia, dizendo: "Na paz dela tereis paz", a paz temporal de que os bons e os maus gozam juntos.