A Cidade de Deus - Livro XIX 9
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
Da amizade dos santos anjos, da qual os homens não podem estar certos nesta vida, por causa do engano dos demônios que mantêm em servidão os adoradores de uma pluralidade de deuses
Os filósofos que quiseram que tivéssemos os deuses por amigos colocam a amizade dos santos anjos no quarto círculo da sociedade, avançando agora dos três círculos da sociedade na terra para o universo, e abarcando o próprio céu. E nessa amizade não temos, em verdade, receio algum de que os anjos nos aflijam com a sua morte ou com a sua degeneração.
Mas, como não podemos conviver com eles tão familiarmente quanto com os homens (o que, em si mesmo, já é uma das misérias desta vida), e como Satanás, segundo lemos, por vezes se transforma em anjo de luz, para tentar aqueles que é necessário disciplinar, ou simplesmente para enganar, há grande necessidade da misericórdia de Deus para nos preservar de fazer amizade com demônios disfarçados, enquanto imaginamos ter bons anjos por amigos; pois a astúcia e a falsidade desses espíritos malignos igualam-se à sua capacidade de fazer o mal. E não será isto uma grande miséria da vida humana, que estejamos envolvidos em tamanha ignorância que, não fosse a misericórdia de Deus, nos tornaríamos presa desses demônios?
E é muito certo que os filósofos da cidade ímpia, que sustentaram que os deuses eram seus amigos, haviam caído como presa dos demônios malignos que governam aquela cidade, e cujo castigo eterno ela há de partilhar. Pois a natureza desses seres revela-se suficientemente pelas observâncias sagradas, ou antes sacrílegas, que constituem o seu culto, e pelos jogos imundos em que os seus crimes são celebrados, jogos que eles mesmos instituíram e exigiram dos seus adoradores como propiciação adequada.