A Cidade de Deus - Livro XIX 24
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
A definição que se deve dar de povo e de república, a fim de justificar a atribuição desses títulos aos romanos e a outros reinos
Mas se descartarmos esta definição de povo e, adotando outra, dissermos que um povo é um conjunto de seres racionais unidos entre si por um acordo comum quanto aos objetos de seu amor, então, para descobrir o caráter de qualquer povo, basta-nos observar o que ele ama. Contudo, seja o que for que ame, contanto que seja um conjunto de seres racionais e não de animais, e esteja unido por um acordo quanto aos objetos do amor, com razão se chama um povo; e será um povo tanto mais elevado quanto mais estiver unido por interesses superiores, e tanto mais inferior quanto mais estiver unido por interesses mais baixos.
Segundo esta nossa definição, o povo romano é um povo, e o seu bem comum é, sem dúvida, uma coisa pública ou república. Mas quais eram as suas inclinações em seus dias primitivos e nos posteriores, e como decaiu em sedições sanguinárias e depois em guerras sociais e civis, rompendo assim ou apodrecendo o vínculo de concórdia em que consiste a saúde de um povo, a história o mostra, e nos livros precedentes eu o relatei extensamente.
E, no entanto, nem por isso eu diria que ele não era um povo, ou que a sua administração não era uma república, enquanto permanecer um conjunto de seres racionais unidos por um acordo comum quanto aos objetos do amor. Mas o que digo deste povo e desta república deve entender-se que penso e digo dos atenienses ou de qualquer Estado grego, dos egípcios, da antiga Babilônia assíria e de toda outra nação, grande ou pequena, que teve um governo público.
Pois, de modo geral, a cidade dos ímpios, que não obedeceu ao mandamento de Deus de não oferecer sacrifício senão somente a Ele, e que, portanto, não pôde dar à alma o devido domínio sobre o corpo, nem à razão a justa autoridade sobre os vícios, está privada de verdadeira justiça.