A Cidade de Deus - Livro XIX 25

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Que onde não há verdadeira religião não há verdadeiras virtudes

Pois, ainda que a alma pareça governar o corpo de modo admirável, e a razão dominar os vícios, se a própria alma e a própria razão não obedecem a Deus, conforme Deus lhes ordenou que o servissem, elas não têm autoridade legítima alguma sobre o corpo e os vícios. Pois que espécie de senhora do corpo e dos vícios pode ser aquela mente que ignora o verdadeiro Deus, e que, em vez de estar sujeita à sua autoridade, prostitui-se às influências corruptoras dos mais viciosos demônios?
É por essa razão que as virtudes que ela julga possuir, e pelas quais refreia o corpo e os vícios para obter e conservar aquilo que deseja, são antes vícios do que virtudes, enquanto não houver, na questão, referência alguma a Deus. Pois, embora alguns suponham que as virtudes que têm referência somente a si mesmas, e são desejadas apenas por causa de si próprias, sejam ainda assim virtudes verdadeiras e genuínas, o fato é que mesmo então elas se acham infladas de soberba, e por isso devem ser consideradas vícios e não virtudes.
Pois, assim como aquilo que vida à carne não deriva da carne, mas está acima dela, do mesmo modo aquilo que vida bem-aventurada ao homem não deriva do homem, mas é algo acima dele; e o que digo do homem é verdadeiro de toda e qualquer potência e virtude celestial, seja ela qual for.