A Cidade de Deus - Livro XIX 5
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
Da vida social, que, embora sumamente desejável, é com frequência perturbada por muitas aflições
Damos uma aprovação bem mais irrestrita à ideia deles de que a vida do sábio deve ser social. Pois como poderia a cidade de Deus (sobre a qual já estamos escrevendo nada menos que o décimo nono livro desta obra) ter um princípio, ou desenvolver-se, ou alcançar o seu devido destino, se a vida dos santos não fosse uma vida social? Mas quem pode enumerar todos os grandes males de que abunda a sociedade humana na miséria deste estado mortal? Quem pode pesá-los? Ouvi como um dos seus escritores cômicos faz uma de suas personagens exprimir os sentimentos comuns a todos os homens nesta matéria: "Sou casado; eis aqui uma miséria.
Nascem-me filhos; são cuidados que se acrescentam." Que direi das misérias do amor que Terêncio também enumera: "desdéns, suspeitas, querelas, guerra hoje, paz amanhã"? Não está a vida humana cheia de tais coisas? Não ocorrem elas com frequência até nas amizades honestas? Por toda parte experimentamos esses desdéns, suspeitas, querelas e guerras, todos os quais são males indubitáveis; ao passo que, por outro lado, a paz é um bem duvidoso, porque não conhecemos o coração do nosso amigo, e ainda que o conhecêssemos hoje, ignoraríamos o que ele poderia ser amanhã.
Quem deveria ser, ou quem é, mais amigo do que aqueles que vivem na mesma família? E todavia quem pode confiar mesmo nessa amizade, visto que uma traição secreta a tem desfeito muitas vezes, e produzido uma inimizade tão amarga quanto fora doce a amizade, ou parecera doce pela mais perfeita dissimulação? É por essa razão que as palavras de Cícero de tal modo comovem o coração de cada um, e provocam um suspiro: "Não há ciladas mais perigosas do que aquelas que se ocultam sob a aparência do dever ou o nome do parentesco.
Pois ao homem que é teu inimigo declarado podes facilmente frustrar com cautela; mas este perigo oculto, interno e doméstico não apenas existe, mas te oprime antes que possas prevê-lo e examiná-lo." É também a isto que faz alusão a palavra divina: "Os inimigos do homem são os da sua própria casa", palavras que ninguém pode ouvir sem dor; pois ainda que um homem tenha fortaleza suficiente para suportá-las com equanimidade, e sagacidade bastante para frustrar a malícia de um falso amigo, todavia, se ele mesmo é um homem bom, não pode senão sofrer grandemente ao descobrir a perfídia dos homens maus, quer tenham sido sempre maus e apenas fingissem bondade, quer tenham decaído de uma melhor para uma disposição maliciosa.
Se, então, o lar, refúgio natural contra os males da vida, não é ele mesmo seguro, que diremos da cidade, a qual, sendo maior, está tanto mais cheia de litígios civis e criminais, e nunca está livre do temor, ainda que por vezes o esteja da irrupção efetiva, de sublevações e guerras civis perturbadoras e sangrentas?