A Cidade de Deus - Livro XIX 12
Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades
Que mesmo a ferocidade da guerra e toda a inquietação dos homens tendem a este único fim, a paz, que toda natureza deseja
Quem quer que preste ao menos moderada atenção aos assuntos humanos e à nossa natureza comum reconhecerá que, se não há homem que não queira ser feliz, tampouco há quem não queira ter paz. Pois até mesmo os que fazem guerra nada mais desejam senão a vitória, isto é, desejam alcançar a paz com glória. Que outra coisa é a vitória senão a sujeição dos que nos resistem? E, uma vez feito isto, há paz. É, portanto, com o desejo de paz que as guerras são travadas, mesmo por aqueles que têm prazer em exercer sua natureza belicosa no comando e na batalha. E daí é manifesto que a paz é o fim buscado pela guerra.
Pois todo homem busca a paz fazendo guerra, mas nenhum homem busca a guerra fazendo a paz. Pois até mesmo aqueles que intencionalmente interrompem a paz em que vivem não têm ódio à paz, mas apenas querem vê-la mudada numa paz que mais lhes convenha. Não desejam, portanto, ficar sem paz alguma, mas tão somente outra mais a seu gosto. E no caso da sedição, quando os homens se separam da comunidade, ainda assim não realizam o que querem, a menos que mantenham alguma espécie de paz com seus companheiros de conspiração.
E por isso até os salteadores têm o cuidado de manter a paz com seus comparsas, para que com maior efeito e maior segurança possam invadir a paz dos outros homens. E se acaso algum indivíduo for de tão incomparável força, e tão ciumento de qualquer parceria, que não confie em nenhum companheiro, mas trame seus próprios planos e cometa por conta própria as rapinas e os assassinatos, ainda assim ele mantém alguma sombra de paz com aquelas pessoas que não consegue matar e de quem deseja ocultar seus feitos.
Também em seu próprio lar ele põe como meta estar em paz com a esposa e os filhos e quaisquer outros membros de sua casa, pois sem dúvida a pronta obediência deles a cada um de seus olhares é para ele fonte de prazer. E se isto não lhe for prestado, ele se ira, repreende e castiga; e até por meio dessa tempestade assegura, conforme a ocasião exige, a calma paz de seu próprio lar. Pois vê que a paz não pode ser mantida a menos que todos os membros do mesmo círculo doméstico estejam sujeitos a uma só cabeça, tal como ele próprio o é em sua própria casa.
E por isso, se uma cidade ou nação se oferecesse para submeter-se a ele, para servi-lo do mesmo modo como ele fizera sua casa servi-lo, ele já não se esconderia nos esconderijos de um bandoleiro, mas ergueria a cabeça em pleno dia como um rei, ainda que permanecessem nele a mesma cobiça e a mesma maldade. E assim todos os homens desejam ter paz com o próprio círculo que querem governar como lhes convém. Pois até mesmo aqueles contra quem fazem guerra eles desejam tornar seus e impor-lhes as leis de sua própria paz.
Mas suponhamos um homem tal como a poesia e a mitologia descrevem: um homem tão insociável e selvagem que se chamava antes meio-homem que homem.
Pois ainda que seu reino fosse a solidão de uma caverna lúgubre, e ele próprio fosse tão singularmente perverso de coração que recebeu o nome de Κακός, que é a palavra grega para "mau"; ainda que não tivesse esposa que o acalentasse com conversa carinhosa, nem filhos com quem brincar, nem filhos varões para cumprir suas ordens, nem amigo para alegrá-lo com o convívio, nem mesmo seu pai Vulcano (embora num aspecto fosse mais feliz que o pai, por não ter gerado um monstro como ele mesmo); ainda que a ninguém desse nada, mas tomasse à vontade o que pudesse, de quem pudesse, quando pudesse; todavia, naquele covil solitário, cujo chão, como diz Virgílio, fumegava sempre de matança recente, nada mais se buscava senão a paz, uma paz em que ninguém o molestasse nem o inquietasse com qualquer ataque ou alarme.
Com o próprio corpo ele desejava estar em paz, e só se sentia satisfeito na medida em que tinha essa paz. Pois governava seus membros, e eles lhe obedeciam; e a fim de pacificar sua natureza mortal, que se rebelava quando carecia de algo, e de aplacar a sedição da fome, que ameaçava banir a alma do corpo, ele fazia incursões, matava e devorava; mas usava a ferocidade e a selvageria que mostrava nesses atos apenas para a preservação da paz de sua própria vida.
De modo que, se tivesse estado disposto a fazer com os outros homens a mesma paz que fazia consigo mesmo em sua própria caverna, não teria sido chamado nem mau, nem monstro, nem meio-homem. Ou se a aparência de seu corpo e o fogo fumacento que vomitava espantavam os homens de terem qualquer trato com ele, talvez seus modos ferozes não nascessem do desejo de fazer o mal, mas da necessidade de prover o sustento. Mas pode ser que ele nunca tenha existido, ou ao menos não tenha sido tal como os poetas fantasiosamente o descrevem, pois tinham de exaltar Hércules, e o fizeram à custa de Caco.
É melhor, então, crer que tal homem ou meio-homem jamais existiu, e que isto, em comum com muitas outras fantasias dos poetas, é mera ficção. Pois os animais mais selvagens (e dele se diz que era quase uma fera) cercam a própria espécie com um círculo de paz protetora. Coabitam, geram, dão à luz, amamentam e criam suas crias, ainda que muitíssimos deles não vivam em bando, mas solitários, não como ovelhas, veados, pombos, estorninhos, abelhas, mas como leões, raposas, águias, morcegos. Pois que tigresa não ronrona suavemente sobre seus filhotes e não depõe sua ferocidade para acariciá-los?
Que milhafre, solitário como é quando paira sobre sua presa, não busca uma companheira, constrói um ninho, choca os ovos, cria os filhotes e mantém com a mãe de sua família uma aliança doméstica tão pacífica quanto pode? Quanto mais poderosamente as leis da natureza do homem o movem a manter convívio e a guardar a paz com todos os homens, na medida em que está em seu poder, visto que mesmo os homens maus fazem guerra para manter a paz de seu próprio círculo, e desejariam que, se possível, todos os homens lhes pertencessem, para que todos os homens e todas as coisas servissem a uma só cabeça, e, ou por amor ou por temor, se entregassem à paz com ele!
É assim que a soberba, em sua perversidade, imita a Deus. Ela abomina a igualdade com os outros homens sob Ele, mas, em lugar do governo dele, busca impor um governo próprio aos seus iguais. Abomina, isto é, a justa paz de Deus, e ama a sua própria paz injusta; mas não pode deixar de amar a paz de uma espécie ou de outra. Pois não há vício tão de todo contrário à natureza que apague até os mais tênues vestígios da natureza.
Aquele, pois, que prefere o que é reto ao que é torto, e o que é bem ordenado ao que é pervertido, vê que a paz dos homens injustos não merece ser chamada paz em comparação com a paz dos justos. E todavia, mesmo o que é pervertido deve necessariamente estar em harmonia com, e em dependência de, e em alguma parte da ordem das coisas, pois de outro modo não teria existência alguma. Suponhamos que um homem fique pendurado de cabeça para baixo: esta é certamente uma postura pervertida do corpo e uma disposição pervertida de seus membros, pois aquilo que a natureza requer que esteja em cima está embaixo, e vice-versa.
Essa perversidade perturba a paz do corpo, e por isso é dolorosa. Não obstante, o espírito está em paz com o seu corpo e labuta por sua preservação, e daí o sofrimento; mas, se for banido do corpo pelas suas dores, então, enquanto a estrutura corpórea se mantiver unida, há nos restos uma espécie de paz entre os membros, e por isso o corpo permanece suspenso.
E porquanto o corpo terreno tende para a terra e repousa sobre o laço pelo qual está suspenso, ele tende assim à sua paz natural, e a voz de seu próprio peso reclama um lugar onde repousar; e, embora agora sem vida e sem sensação, ele não decai da paz que é natural ao seu lugar na criação, quer já a possua, quer tenda para ela. Pois, se aplicardes preparações de embalsamamento para impedir que a estrutura corpórea se decomponha e se dissolva, uma espécie de paz ainda une parte a parte e mantém o corpo inteiro num lugar conveniente sobre a terra, isto é, num lugar que está em paz com o corpo.
Se, por outro lado, o corpo não receber tal cuidado, mas for deixado ao curso natural, ele é perturbado por exalações que não harmonizam entre si e que ofendem os nossos sentidos; pois é isto que se percebe na putrefação, até que o corpo se assimile aos elementos do mundo e, partícula por partícula, entre em paz com eles. Todavia, ao longo de todo esse processo, as leis do altíssimo Criador e Governador são estritamente observadas, pois é por Ele que a paz do universo é administrada.
Pois, embora animais minúsculos sejam produzidos da carcaça de um animal maior, todos esses pequenos átomos, pela lei do mesmo Criador, servem em paz aos animais a que pertencem. E ainda que a carne de animais mortos seja comida por outros, não importa para onde seja levada, nem com que entre em contato, nem em que seja convertida e transformada, ela continua a ser regida pelas mesmas leis que penetram todas as coisas para a conservação de toda raça mortal, e que conduzem à harmonia as coisas que se ajustam umas às outras.