A Cidade de Deus - Livro XIX 3

Livro XIX: o sumo bem, a verdadeira paz e a felicidade das duas cidades

Qual das três principais opiniões sobre o sumo bem deve ser preferida, segundo Varrão, que segue Antíoco e a Velha Academia

Qual destas três opiniões é verdadeira e deve ser adotada, ele se esforça por demonstrar da maneira seguinte. Visto que é o sumo bem, não de uma árvore, nem de um animal, nem de um deus, mas do homem, que a filosofia busca, ele pensa que, antes de tudo, devemos definir o homem. É de opinião que duas partes na natureza humana, o corpo e a alma, e não tem dúvida de que, destas duas, a alma é a melhor e de longe a parte mais digna. Mas se a alma sozinha é o homem, de modo que o corpo mantenha com ela a mesma relação que o cavalo mantém com o cavaleiro, isto, ele pensa, precisa ser averiguado.
O cavaleiro não é um cavalo e um homem, mas apenas um homem; contudo, é chamado cavaleiro porque está em certa relação com o cavalo. Por outro lado, será o corpo sozinho o homem, mantendo com a alma uma relação tal como a taça mantém com a bebida? Pois não são a taça e a bebida que ela contém que se chamam taça, mas a taça apenas; contudo, assim se chama porque foi feita para conter a bebida.
Ou, por fim, não será nem a alma sozinha nem o corpo sozinho, mas ambos juntos, que constituem o homem, sendo o corpo e a alma cada qual uma parte, mas o homem inteiro sendo os dois juntos, assim como chamamos parelha a dois cavalos atrelados em conjunto, parelha da qual o cavalo de dentro e o de fora são cada um uma parte, mas não chamamos a nenhum deles, por mais ligado que esteja ao outro, de parelha, e sim apenas a ambos juntos? Destas três alternativas, então, Varrão escolhe a terceira: que o homem não é nem o corpo sozinho, nem a alma sozinha, mas ambos juntos. E, portanto, o sumo bem, no qual reside a felicidade do homem, compõe-se de bens de ambos os gêneros, tanto corporais quanto espirituais.
E, por conseguinte, ele pensa que os objetos primários da natureza devem ser buscados por si mesmos, e que a virtude, que é a arte de viver e pode ser comunicada pela instrução, é o mais excelente dos bens espirituais.
Esta virtude, pois, ou arte de regular a vida, quando recebeu esses objetos primários da natureza que existiam independentemente dela e antes de qualquer instrução, busca-os a todos, e a si mesma também, por amor de si própria; e deles se serve, como também se serve de si mesma, para que de todos eles possa derivar proveito e gozo, maior ou menor, conforme sejam eles próprios maiores ou menores; e, embora se compraza em todos eles, despreza os menores para que possa obter ou conservar os maiores quando a ocasião o exigir. Ora, de todos os bens, espirituais ou corporais, não nenhum que se compare com a virtude.
Pois a virtude faz bom uso tanto de si mesma quanto de todos os outros bens em que reside a felicidade do homem; e, onde ela está ausente, por mais coisas boas que um homem possua, elas não são para o seu bem e, por conseguinte, não devem ser chamadas coisas boas enquanto pertencem a alguém que as torna inúteis ao usá-las mal. A vida do homem, então, chama-se feliz quando goza da virtude e desses outros bens espirituais e corporais sem os quais a virtude é impossível.
Chama-se mais feliz se goza de alguns ou de muitos outros bens que não são essenciais à virtude; e felicíssima de todas, se não lhe falta nenhum dos bens que pertencem ao corpo e à alma. Pois a vida não é a mesma coisa que a virtude, visto que não toda vida, mas a vida sabiamente regulada é virtude; e, contudo, embora possa haver vida de algum tipo sem virtude, não pode haver virtude sem vida. Isto eu poderia aplicar à memória e à razão, e a tais faculdades mentais; pois estas existem antes da instrução, e sem elas não pode haver instrução alguma, nem, por conseguinte, virtude alguma, visto que a virtude se aprende.
Mas as vantagens corporais, tais como a rapidez dos pés, a beleza ou a força, não são essenciais à virtude, nem a virtude lhes é essencial; e, contudo, são coisas boas; e, segundo os nossos filósofos, até mesmo essas vantagens são desejadas pela virtude por amor de si própria, e por ela usadas e gozadas de maneira conveniente.
Dizem que esta vida feliz é também social, e ama as vantagens dos seus amigos como as suas próprias, e por amor deles deseja-lhes o que deseja para si mesma, quer esses amigos vivam na mesma família, como a esposa, os filhos, os domésticos; quer no lugar onde está o nosso lar, como os cidadãos da mesma cidade; quer no mundo em geral, como as nações unidas na comum fraternidade humana; quer no próprio universo, compreendido nos céus e na terra, como aqueles a quem chamam deuses, e que apresentam como amigos para o sábio, e a quem nós mais familiarmente chamamos anjos.
Além disso, dizem que, quanto ao sumo bem e ao sumo mal, não lugar para dúvida, e que por isso diferem da Nova Academia nesse aspecto, e não se importam se um filósofo persegue aqueles fins que julgam verdadeiros sob a veste e o modo de vida cínicos ou de algum outro modo. E, por fim, no que diz respeito aos três modos de vida, o contemplativo, o ativo e o composto, declaram-se a favor do terceiro.
Que estas eram as opiniões e doutrinas da Velha Academia, Varrão o afirma sob a autoridade de Antíoco, mestre de Cícero e dele próprio, embora Cícero o apresente como tendo estado mais frequentemente de acordo com os estoicos do que com a Velha Academia. Mas que importância tem isto para nós, que devemos julgar a questão por seus próprios méritos, em vez de compreender com exatidão o que diferentes homens pensaram a respeito dela?